Leia se a primeira coisa que você faz no seu dia é olhar o WhatsApp

Texto: Daniel Alves de Araújo / Situação 1: Um grupo de cinco amigos em um bar legal. Balde de Brahma gelada. Música ao vivo. Muitos deles não se vêem há tempos. Sabe como anda a vida né? Estão marcando essa saída desde o ano passado e finalmente as estrelas se alinharam permitindo que a agenda e a situação econômica deles coincidisse. E lá estão eles.

Mas não estão.

O primeiro está mandando mensagem para uma “amiga”. O segundo foi olhar rapidinho o horário de uma sessão de Logan amanhã, mas uma força misteriosa o atraiu até a página “Corrupção Brasileira Memes” no Facebook. O terceiro deixou o celular em cima da mesa e dá aquela olhadinha de minuto em minuto porque, sabe? Pode ser importante. E o último, bem, o último está com pouca bateria.


Situação 2: Um casal. Sexta a noite. Jantar de dois anos de namoro. Ela, universitária de design feliz pelo estágio novo, que demorou a aparecer. Ele, formado em engenharia de produção resolveu arriscar em uma startup com alguns amigos recém-formados. Aquele jantar é a comemoração de algo sólido que foi construído com paciência e perseverança. Há muita confiança e otimismo com o relacionamento. Há desafios, mas também motivos para comemorar. Eles confiam um no outro e estão dispostos a buscar os sonhos juntos.

Só que, no momento, não estão falando sobre isso. Não estão nem conversando um com o outro, aliás.

Ele foi dar uma espiadinha rápida no grupo da startup. A rapazeada é muito gente boa, e ele acabou se distraindo com uma brincadeira. E ela aproveitou o momento para ver se o Rh da empresa não mandou um e-mail. Vai que… né?

Você já entendeu qual é o ponto, não é?

Aquilo que deveria nos conectar está nos separando. Black Mirror está virando uma realidade.

Se acha exagero, dê uma olhada nessa entrevista do psicólogo Simon Sinek, (entre os minutos 3:17s e 10:26s)

Pois é. Os “likes” estão nos escravizando. As redes sociais (e o whatsapp é uma rede social) estão virando uma dependência, agravada pelo fato de podermos carregar esses celulares para não importa onde vamos.

Fontes de dopamina constante, no nosso bolso

A dopamina gera dependência. Se você está entediado e pega o celular para se distrair com o Facebook, seu cérebro reconhece que aquele é um caminho para a satisfação. E vai te condicionando. Nos momentos chatos, seus dedos começam a coçar. A mão vai indo para o bolso.

Só que a vida é cheia dos momentos chatos. Um relacionamento amoroso tem momentos chatos, demanda paciência. Para ser bem sucedido e ter satisfação no trabalho você precisa trabalhar, e isso demanda esforço, as vezes frustração. Família e amigos, com laços verdadeiros, demandam paciência em maus momentos.

Se você se acostuma a fugir desses momentos, você abre mão de todas essas coisas que dão sabor a vida. Abre mão da própria vida. E de fato, nãos estamos vivendo mais as nossas vidas, quer ver?

Quando foi a última vez que você realmente esteve em algum lugar?

Estar com sua namorada mas com a mão coçando para pegar o celular não é estar com ela. Você não está no churrasco em família se você aproveita a espera pela carne para ficar dando aquele scroll infinito na sua timeline do Facebook. Seu corpo está lá, mas você não.

E já parou para pensar do que você abre mão?

  • Ouvir a história de como seu avô namorou sua avó por carta e depois descobriu que ela na verdade era noiva de outro.
  • Saber que sua irmã caçula na verdade gosta muito de tocar piano (sabia que ela faz aula de piano há três meses? Você não esteve muito atento!) e está começando a sonhar em ser música.
  • Puxar papo com aquele colega na faculdade que veio com uma camisa da sua banda favorita, e descobrir, olha só, que ele é um cara muito legal.
  • Ter a inspiração para uma surpresa romântica para sua namorada, afinal inspiração vem nesses momentos em que não estamos nos distraindo e ocupando a mente com dopamina digital.

Viu quanta coisa? A vida podia ser muito mais saborosa.

Talvez o momento mais assustador da fala de Simon Sinek é quando ele diz que o melhor quadro possível para um viciado em internet é uma vida baseada em “tudo ok”. “Como foi no trabalho?” “Tudo, ok”. “E o dia hoje, como foi?” “Foi ok. Mesma coisa de ontem”. Uma vida sem sal.

Será que não podemos querer algo mais do que uma vidinha mais ou menos? Que um dia “ok”?

Desconecta um pouco. Passa um dia dando atenção para quem está do seu lado. Separa um horário para responder mensagens no whatsapp e depois deixa ele para lá. Se alguém precisar falar com você, a pessoa dá um jeito. Viva um, dois, três dias estando exatamente a onde você está e com quem você estiver.

A vida vai voltar a ter sabor.

Fonte: https://trendr.com.br/

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