Texto: Ariane Barros Soares | No submundo o ser é mais humano do que na superfície, no superficial.

Não sei dizer o que me causou interesse, mas, lá pras 9h daquele dia eu resolvi baixar “O doce veneno do escorpião”, lançado pela editora Panda Books em 2006. Semanas antes, eu havia assistido o filme de Raquel Pacheco, conhecida vulgarmente (termo usado com todos os sentidos literais possíveis) como Bruna Surfistinha. O filme (2011), interpretado por Deborah Secco, conta a historia da garota de programa mais conhecida do país que ganhou fama ao escrever em seu blog sobre cada programa que fazia. É assim que funciona no país das “festas”, é pra isso que servimos, é isso que se celebra, esta no sangue.

Mais do que obviamente, não me surpreendi. Não é tão bem escrito, não há lições evidentes a respeito de moral e ética, não tem beleza, não tem ficção, é só o cotidiano de uma prostituta e de como esta escolheu o seu caminho. Mas é ai que mora a verdadeira arte: A vida contada por ela mesma. As repressões internas que refletem distorcidamente o que precisamos. A busca por algo mais  profundo que desemboca no superficial.

Bruna conta, em seu primeiro livro, como foi ser uma adolescente que se achava feia, porém querida pela família que a acolheu, como se envolvia com os garotos da escola e a princípio ia refreando suas vontades e como lidou e até gostou da fama que começou a ganhar no colégio ao ter sua intimidade exposta, como começou a praticar pequenos furtos, não por necessidade, mas por vontade, e como isso trouxe problemas com os pais, que inclusive, foram vitimas, conta como foi mudar da agua para o vinho,  usar drogas, ter uma overdose, fazer cerca de 5 programas por dia com famosos ou homens que juntavam economias para passar pelo menos uma hora com ela, mas acima de tudo, conta, nas entrelinhas, a necessidade humana da autoafirmação.

Quando terminei de ler o livro, mal pude avalia-lo, afinal, como se da nota pra uma garota de programa quando o único prazer que ela pôde te dar limitou-se a 172 paginas? Busquei opiniões por ai e tudo que vi se resumiu em:

. “Aff, puta, ridícula. Livro sem conteúdo nenhum”;

.”Nossa, melhor que 50 tons de cinza”.

Jura? Que pena que as pessoas por ai andam limitadas a enxergar apenas as palavras mas não o que há por trás (com o perdão do trocadilho infame).

O que me chamou atenção no livro de Bruna, é que ela saciou seu desejo de ser admirada por meios mais eficazes, porém, não genuinos. Bruna foi adotada por uma família bem de vida, ela não precisava recorrer a prostituição, deu-se de graça a vida paga que tantas outras, que não enxergam outras opções, a não ser usar a única arma que lhes restam para sobreviver: o corpo. Em meio a vontade de tornar-se independente da familia que começou a destrata-la e de ser desejada, uma vez que raramente se sentia assim dada a sua aperencia, juntou suas carencias e migrou pra uma rotina sem leis, sem exigências, sem modos. Largou família, boa vida, conforto, só não largou sua humanidade. O que eu quero que você compreenda é que se foda o corpo, literalmente, mas prevaleça o que há por dentro. Não só por dentro de Bruna ou de qualquer outra garota de programa, bêbado, meliante, os tais protagonistas da vala social, mas dentro de você. Mesmo que você não seja acariciado por adúlteros que buscam prazer extraconjungal, o que tem preenchido o que falta em você? Ela atingiu seu objetivo da forma como pode, não estamos nós fazendo o mesmo? No submundo todos somos iguais, mais doentes, sujos, somos humanos, somos o que realmente somos. Na superfície somos o que queríamos ser, menos nós mesmos. Fato é que Bruna conta em seu livro como começou a fazer de sua vida o que ela realmente queria fazer, enquanto você reclama do seu emprego todos os dias.

Só recomendo a leitura caso você não se escandalize com  palavras chulas ou sexo explicito, alias, sinto te avisar, também há muito disso dentro de você, por mais que você reprima. Dica: tente aprender a conviver com isso. Recomendo também pra aqueles que tem curiosidade em saber “como é que uma mulher pode se submeter a isso”. Mas te desafio a olhar pra uma prostituta como olha pra sua mãe, afinal, as duas, em algum ponto da vida já erraram aos olhos de um juiz, que pode ser qualquer um, até mesmo voce.

A verdade é que todos nós temos o veneno do escorpião, mas para não envenenar nosso meio social, como fez Bruna, envenenamos a nós mesmos.


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