Projeto ignorou problemas urbanísticos, diz especialista. Policiamento é intenso apenas nos dias de jogos, segundo moradores

Quatro anos após um investimento bilionário para a Copa de 2014, o entorno da Arena Corinthians, em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, beneficiou o tráfego da região, o mercado imobiliário e o Shopping Metrô Itaquera. No que diz respeito à segurança e à aridez do bairro, pouco mudou.

As transformações na região, localizada a 20 km do centro da capital, começaram em outubro de 2011, quando o futuro estádio foi anunciado como sede dos jogos do mundial na capital paulista. Além do campo de futebol, as diretrizes da Fifa exigiam investimentos concentrados na logística dos espectadores.

Moradores e profissionais que atuam no bairro confirmaram mudanças positivas naquele trecho de Itaquera. Os moradores consideram que a estética do bairro está melhor com a maior demanda de visitantes no shopping e nos dias de jogo.

Um porta-voz do Shopping Metrô Itaquera relatou o aumento expressivo de consumidores no local e o Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) aponta valorização dos imóveis, em um momento em que os preços caíram no restante da cidade.

Por outro lado, o arquiteto, urbanista, economista, cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) João Sette Whitaker explica que o bairro tem desafios urbanísticos antigos a transpor, como a sobreposição de grandes equipamentos, como o estádio, que tornam a região árida para os pedestres.

Além disso, a análise de dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) indica que a produtividade policial aumentou na região às vésperas da Copa do Mundo, mas voltou a cair após o evento. Fácil acesso e movimento

“Moro aqui desde criança, e a região mudou 100% com a Copa. Não havia fácil acesso para Artur Alvim, Radial Leste, Avenida Calim Eid. Hoje parece que estamos no Morumbi. Temos esse lugar lindo para curtir”, diz Neno Carmo, de 37 anos, que trabalha como segurança à noite e aproveitava a tarde no espaço ao lado do estádio, que se tornou um mirante com vista para a estação Corinthians-Itaquera do Metrô.

“A vida das pessoas mudou por causa do movimento. Em dias de jogos, as ruas viram estacionamento, a molecada olha carro, há quem venda bebida e churrasquinho. O bairro se torna bastante comercial nesses dias. Alguma coisa melhorou, sim”, afirma o taxista Paulo Ricardo.

A reportagem esteve nas imediações da Arena Itaquera e constatou a mudança da paisagem que, além do imponente estádio, possui uma grande unidade da Fatec, um enorme terminal de ônibus e trens e o Shopping Metrô Itaquera.

Os equipamentos de grande porte, no entanto, estavam relativamente isolados entre si, não apresentavam fluxo de pedestres, nem bares e restaurantes.

O urbanista João Whitaker explica que este é um problema antigo. “A maior dificuldade é que se trata de uma região monofuncional. Ao longo dos anos 60, 70 e 80 foram construídos grandes conjuntos habitacionais por ali, o que tornou Itaquera um bairro essencialmente dormitório”, explica o professor.

“Os projetos desenvolvidos não dialogam com o espaço público. É uma sobreposição de equipamentos que resulta em uma área difícil de transpor. No final das contas, há grandes extensões vazias, pouco comércio, pouco serviço, pouca praça, pouca área pública. É uma região que apresenta essa aridez por conta dessa inadequação urbana”, continua João Whitaker.

Para o professor, o projeto do estádio seria uma oportunidade de ajudar a resolver o problema urbanístico, mas as exigências da FIFA não atentaram a essa demanda.

“É uma área com desníveis e escadas, com isolamentos que necessitam de um projeto que crie trajetos, circuitos, parques ou áreas públicas. O projeto da FIFA, ao contrário, exigiu, por exemplo, um enorme estacionamento, que torna a região ainda mais árida e alimenta essa fruição urbana”, conclui.

As informações foram retiradas do site: g1.globo.com

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