Acompanhada pelos dançarinos do coreógrafo e diretor Marcos Abranches, a bailarina colaborou com o sucesso do espetáculo

Apesar da chuva e mesmo com um pouco de timidez a pequena bailarina compareceu à nossa entrevista, em uma padaria perto da sua casa, vestida com o mesmo figurino, que usou no teatro. “Prazer, sou Maria Helloisa, bailarina! Tenho muito orgulho de ter nascido na Cidade Tiradentes”

A bailarina de apenas dez anos de idade, tem uma rotina cheia de tarefas, ensaios, curso de idiomas, além da escola tradicional, sobrando apenas um dia de folga por semana. Maria Helloisa relata, que sentiu vontade de se tornar uma bailarina já na pré-escola, quando via as amigas ensaiando. “Lembro-me, que falei para minha mãe, que gostaria de fazer um curso de balé. Ela logo concordou, mas me disse que eu não iria ficar, porque teria que ter muita disciplina. Mas, com o tempo, ela acabou se surpreendendo”

Hoje eu pratico balé, jazz, dança contemporânea e dança do ventre. Quando estou nervosa, danço! Quando estou ansiosa, danço! Quando estou feliz, danço.” Afirma ainda, que se apresentar no Teatro Sérgio Cardoso foi importante, porque teve a oportunidade de conhecer outras formas de dança, novos aprendizados, novos artistas e pessoas que amam a dança.

“No começo eu fiquei nervosa, mas depois fui me acalmando. Se apresentar com artistas experientes, me mostrou um lado da arte, que eu não conhecia. Como estou acostumada com o balé clássico, no início estranhei um pouco, mas logo me adaptei. Não perdi nenhum ensaio, sabia o quanto era importante estar junto com eles. Sem contar o professor Marcos Abranches, que tem um talento incrível.”

Segundo a mãe, ela não reclama de nada, ao contrário realiza todas as atividades com prazer e dedicação, desde os seis anos de idade. “Mas não é nada fácil, os figurinos são caros, em cinco meses, gastamos 1680 reais, além da distância do bairro, que complica ainda mais. Durante o ensaio no Teatro Sérgio Cardoso, chegávamos sempre à meia noite em casa, mas o sacrifício valeu a pena. No grande dia, meu coração estava dançando mais que a minha filha. Foi um dos momentos mais importante da minha vida”.

“Eu sonhava com ela desse jeitinho. Há dez anos eu já sabia o nome dela, o formato do rosto, o jeitinho do cabelo. No fundo queria que ela fosse a bailarina, que eu não pude ser.”

A emocionante história da bailarina da Cidade Tiradentes, se tornou ainda mais auspiciosa, por ser na verdade uma dupla história de superação. Afinal o diretor Marcos é portador de uma deficiência motora, decorrente de paralisia cerebral. O artista só se sentiu seguro para andar na rua sozinho aos 16 anos de idade. Mas hoje é muito respeitado e já se apresentou nos grandes palcos do Brasil e da Europa.

“Quando Deus colocou a dança em minha vida, não me perguntou se eu queria ou não. Simplesmente a colocou. Deus não pergunta. Mas de uma coisa estou certo: ele me fez dançarino, para que, entre outros, eu possa fazer o mundo refletir sobre a importância de sermos diferentes uns dos outros, pois essa é a nossa principal qualidade. As fontes da arte e da cultura são inesgotáveis, sem limites ou fronteiras. Vão se surpreender, quando nós deficientes, mostrarmos do que somos capazes.” Marcos Abranches

Por: Claudia Canto é Jornalista Literária, Palestrante e Escritora / Fotos: Maria Fernanda Vido Fagundes