Ajudar os filhos com as tarefas da escola e as aulas online têm sido um desafio para os pais que estão em casa durante a quarentena de coronavírus. Mas esse representa apenas um lado da moeda. E os professores? Como têm sido para eles a experiência de mudar completamente a forma como ensinam os alunos? 

Para Ana*, a mudança foi gritante. Professora de uma escola particular em São Miguel Paulista, São Paulo, ela explica que o colégio e seus professores não tinham suporte para dar aulas online e que a adaptação teve que ser do dia para a noite. 

Essa mudança, claro, conta com uma série de obstáculos, a começar pela internet da própria Ana que, segundo ela, demonstra instabilidade porque não recebe todos os dados contratados – o que, por si só, já dificulta o processo de dar aulas. 

Fora isso, outro ponto importante: no online, ao contrário das salas de aula, ela conta que precisou lidar com a presença dos pais, que acompanhavam as lives junto com os filhos. “Foi difícil, mas demonstrei naturalidade e profissionalismo, pois sei que estou sendo assistida e bem observada”, explica ela. 

Falando nos pais, assim como muitos deles receberam suporte para lidar com as aulas via videoconferência por parte das escolas, para Ana foi a mesma coisa. A professora passou por um treinamento para aprender a usar as novas ferramentas e, passado o susto inicial, ela sente que já consegue comandar melhor as aulas pela internet. “Temos suporte caso haja algum imprevisto na plataforma. Entretanto se der problemas em nossa internet particular, nós que temos que arcar e seremos advertidos”, diz. 

A possibilidade de uma advertência, a adaptação às novas ferramentas e a mudança tão brusca na rotina fizeram com que ela, também, experienciasse o estresse e a pressão de manter as aulas à distância. “Acredito que muitos se sentiram assim”, reflete. “Por mais que tivéssemos algum contato com a tecnologia, tínhamos a noção básica… E, para mim, que já tinha uma vida corrida, agora triplicou o serviço.”

Mais de uma vez, Ana sentiu que não conseguiria passar por essa transição. Isso porque, além de lidar com as mudanças nas aulas da escola, ela está recém-separada, voltou a morar com os pais – que são idosos com 70 anos – e tem cuidado, sozinha, dos dois filhos. 

“Cuidar de casa, filhos, dar aula, se reinventar, é bem complicado”, diz. “Mas eu respirei, pedi forças à Deus, corri atrás… E eu ainda faço faculdade! Eu estou tendo muita dificuldade em desligar das situações para relaxar, eu não estou conseguindo. E, aí, é do momento, é uma energia, uma adrenalina… E tem que se reinventar, como mãe, como professora, como mulher, como um todo, né?”

“A preocupação da gente é virar meme”

Para Cláudia*, a transição para o online também não foi simples. “Com a minha idade, vencer essa barreira da tecnologia não é nada fácil. Não é só a questão do contato com a ferramenta, é porque foi uma surpresa para todos”. 

Também professora, ela explica que a falta do contato presencial com os alunos e os desafios em usar uma ferramenta totalmente nova mudaram muito a sua rotina, que, diz ela, agora tem o triplo de trabalho. 

Além de preparar as aulas, o que faz parte da profissão, ela precisou entender a melhor forma de entregar as tarefas para as crianças, e tem sido cobrada a dar respostas rápidas a respeito das próprias tarefas e notas de seus alunos.

Outra assunto que, com certeza, professores da educação básica jamais pensariam ter em mente é a questão da exposição online, tanto em termos de remuneração, quanto do medo constante de viralizar.  

“Um artista, muitas vezes, recebe um valor porque está expondo a sua imagem”, começa ela. “E o professor, não. Você está apresentando a sua imagem, se expondo, você tem que se arrumar, ser criativo, arrumar um espaço para não passar vexame… Quando você mora sozinho é uma coisa, mas quando você mora com outras pessoas, você as deixa inibidas.”

Cláudia tem dois filhos e mora com eles e o marido em um apartamento pequeno, e o fato de dar aulas fez com que a dinâmica dentro de casa se adaptasse para que ela não tivesse interrupções durante as lives. “A preocupação da gente hoje é virar meme. Se fizer sucesso ainda vai, mas muitos viram chacota, e isso mexe com o nosso emocional”, explica.

A pressão da escola em manter uma imagem respeitável e de acordo com as suas diretrizes em câmera, além de se adaptar rápido, faz com que a professora sinta que está “trabalhando meio pisando em ovos” – e isso não é diferente com os próprios alunos. 

“Às vezes, a criança está com o microfone aberto e a gente ouve os pais reclamando ou brigando com ela. A gente fica tenso e o aluno também. Quando a criança vê o pai ou a mãe passando, já fica tenso também”, diz ela. “Mas, no geral, eu posso dizer que estou grata porque estou trabalhando, eu amo a minha profissão, sou apaixonada pela minha profissão, e invento aulas divertidas!”

Female teacher teaching online lesson on lockdown days
O medo de virar meme e a preocupação com o ambiente tem tirado o sono dos professores (Getty Creative)

Para se adaptar à esse novo momento, Cláudia também se diz grata por poder contar com a ajuda dos filhos e dos equipamentos eletrônicos que tinha em casa – notebooks e celulares -, que garantiram que ela continuasse exercendo a profissão que tanto ama. No entanto, não se pode dizer que esse tem sido um processo simples. 

“Eu me senti triste, tive crises de ansiedade, chorei muito nos primeiros dias, fiquei angustiada”, desabafa. “Passou pela minha cabeça desistir – o que eu acho que passa pela cabeça de todos. Tiveram noites que eu não dormi, porque ficava angustiada pensando como é que eu ia fazer no outro dia, como eu ia me apresentar. É a tal da exposição mesmo, em que tem a exposição geral tanto de pais quanto de alunos, que ficam tirando fotos. É tudo muito exposto, e eu fiquei muito preocupada com isso. Você se expõe para a sociedade e vai parar em qualquer lugar, até em outro país.” 

Outro ponto levantado pela professora é a competição. Enquanto professores mais novos tem facilidade em lidar com a tecnologia, ela se destaca com a didática. Porém, as dúvidas a respeito de sua capacidade ao passar para o online tiraram o sono de Cláudia. “Isso foi um conflito, porque quando eu falava qualquer coisa, que eu tinha dificuldade, e outros professores mais novos não falavam nada sobre isso, ou, quando falavam, induziam mais coisas referente à internet, me trazia uma angustia. Eu pensava ‘Meu Deus, todo mundo está caminhando à frente e eu estou aqui desesperada, não estou sabendo de nada, não estou conseguindo’. Eu falo que os dois profissionais estão sofrendo muito: médicos e profesores. Esses dois estão no auge do driblar com as situacões”.  

*Nomes fictícios: as duas profissionais citadas neste texto solicitaram que seus nomes fossem mantidos em anonimato.