Pequenos empresários superaram obstáculos enquanto economia não deu sinais de recuperação robusta.

A trajetória de recuperação da economia ainda gradual afeta empreendedores, que tiveram de buscar alternativas em 2019 para deixar os anos de crise para trás e ver seus negócios encontrarem o caminho do crescimento.

Isso porque, apesar das expectativas de retomada, o país voltou a crescer pouco no ano passado: segundo os dados divulgados nesta quarta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% em 2019. Foi o terceiro ano seguido de crescimento – mas a taxa ficou abaixo das registradas nos dois anos anteriores, de 1,3% em ambos.

Na última reportagem da série, os três casais com negócios próprios em São Paulo e Guarulhos contam os altos e baixos durante o ano passado com o compasso lento da retomada e seus planos para 2020. Veja abaixo:

André e Patrícia

Patrícia e André consideram que a crise veio para eles se reinventarem, serem criativos e fazerem mudanças — Foto: Fabio Tito/G1

Para o casal de bailarinos André Matos e Patrícia Pressutti, o ano de 2019 trouxe a estabilidade que eles precisavam para cobrir empréstimos contraídos durante a crise de 2016 e 2017 e retomar o fôlego para colocar em prática novos planos para a escola de dança que eles têm na Zona Leste de São Paulo.

André conta que durante os anos de crise econômica teve de recorrer ao cheque especial para manter a escola em funcionamento. “Isso foi criando um volume e a gente foi tendo que cobrir. Ainda tem algum resquício, mas algumas dívidas já acabam no meio do ano, então isso também já dá um fôlego maior”.

Desde janeiro deste ano, eles dividem um espaço maior com outra escola de dança, em sistema de coworking. A mudança foi motivada pela retomada lenta da economia, já que o plano inicial era investir na própria escola que eles tiveram por 12 anos no mesmo bairro. Mas da necessidade vieram novas conquistas. Os custos caíram pela metade e antigos e novos alunos procuraram a escola para se matricular.

“Antes não tinha nem perspectiva disso [pagamento de dívidas] acontecer. Parecia que era infinito, agora já dá para ter porque com a diminuição dos custos isso também vai cobrindo esses rombos. A crise veio realmente pra gente se reinventar, ser criativo e fazer mudanças”, afirma Patrícia.

O número de alunos ficou estável em 2019, o que, para André, foi uma grande conquista, porque vinha caindo nos anos anteriores. “Pelo menos não piorou, que era o grande temor”. E a mudança de local foi aprovada pelos alunos. “O feedback deles é positivo, todos gostaram muito da estrutura, acharam que têm mais conforto”, conta.

Os trabalhos paralelos que o casal faz, como shows, workshops, festivais, paradas de Natal em shoppings e peças de teatro, também ajudaram bastante a complementar a renda. “Nas coisas extras entrou muito dinheiro, mas existiam buracos dos anos anteriores que foram sendo tapados, então a sensação é que ficamos na mesma. Mas se você olhar os números você vê que sim, que foi um ano que a gente faturou muito mais”, observa André.

Para Patrícia, 2019 foi um ano difícil por conta de correr atrás do prejuízo. “A gente só via os números, e isso não chegou até nós, então foi bem apertado”, comenta.

O casal de bailarinos conta que, por causa da retração econômica, ficou dois anos sem aumentar as mensalidades, absorvendo os aumentos de custos. Agora que estão em um espaço maior, eles farão ajustes nos valores.

A implantação da adesão mínima para 3 meses, retirando a opção de plano mensal, foi bem aceita pelos alunos e trouxe mais segurança para o casal se planejar para os negócios.

Neste início de ano, o casal comemora o aumento de 40% na procura por matrículas em relação ao ano passado. Com o espaço maior, o casal planeja aumentar o número de modalidades de dança oferecidas de sete para dez. Com isso, eles pretendem contratar mais uma atendente e três professores.

“No final do ano passado já cresceu bem. A gente vê essa melhora até entre amigos que têm negócio próprio. E de casa nova dá ainda mais ânimo”, diz Patrícia.

Na vida pessoal, a cautela nos gastos continuou em 2019. “Algumas coisas melhoraram, voltamos a sair um pouco, sem grandes abusos. As viagens ainda não foram possíveis, a gente preferiu deixar para depois do que fazer meio apertado. Então a gente segura agora para depois fazer com toda folga e poder usufruir mais”, conta André.

O casal planeja colocar a filha de 4 anos em uma escola particular somente quando ela terminar a educação infantil. E ainda não está nos planos do casal contratar convênio de saúde. Mas as perspectivas para 2020 são otimistas. Eles preveem que com o espaço maior, o fechamento de outras escolas de dança e a melhora da economia terão aumento no número de alunos.

“A gente está bem otimista com o negócio em si, com esse novo fôlego. Esse frescor atrai, a gente já estava esperando esse crescimento. Então a gente espera não só a recuperação, mas investir em mais algumas coisas no espaço para deixá-lo ainda mais versátil e ter mais possibilidade de uso”, afirma o empresário.

André e Patrícia pretendem investir em melhorias como a construção de uma sala de espetáculos para peças de teatro, stand-ups, espetáculos de dança e circo. A previsão é que esteja em funcionamento em dezembro.

André e Patrícia comemoram o aumento de 40% na procura por matrículas em relação ao ano passado — Foto: Fabio Tito/G1


“Queremos investir para o local se tornar um ponto cultural para o bairro. Já estamos nos planejando financeiramente. A estrutura da escola permite fazer isso. Isso acaba alavancando outros negócios também”, prevê André.

Outra prioridade para Patrícia é ter mais tempo livre para a vida pessoal. “A gente vai conseguir ter um fôlego não só financeiro, mas também tempo para a vida pessoal porque a carga era muito pesada, então agora a gente pode se revezar, se tiver locação no domingo o outro casal que é parceiro pode abrir a escola. Nos negócios de cada um ninguém se mete, mas o espaço é compartilhado, então nessa questão será possível dividir as tarefas”.

Está nos planos do casal ainda viajar para a Disney neste ano. “Tem que ir com tudo, vamos pra cima, como minha filha de 4 anos fala: acredita que a gente vai”, diz Patrícia. O casal, que mora em apartamento pequeno há 14 anos, também planeja se mudar para uma casa maior ainda neste ano.

Guilherme e Susiene

Guilherme e Susiene consideram que situação melhorou em 2019, mas expectativas eram maiores — Foto: Celso Tavares/G1

Apesar de 2019 não ter correspondido às suas expectativas, o casal de enfermeiros Guilherme George Souza Silva e Susiene Dias Vitorino da Silva acha que a situação de sua casa de repouso melhorou em relação a 2018.

“Mas poderia ter sido melhor, eu comecei 2019 meio deslumbrado. Não foi ruim, mas eu tinha uma expectativa melhor, eu achei que a demanda ia aumentar”, observa Guilherme.

O enfermeiro conta que o cenário melhorou com o tempo. Mas o aumento da procura não se converteu em hóspedes dentro do esperado por causa da retomada lenta da economia.

“Os clientes querem preços menores. A procura vem de familiares que querem usar somente a renda do idoso, que é de um ou dois salários mínimos. A nossa mensalidade está entre 3 e 3,5 salários mínimos. Fica muito fora da realidade. Para a gente converter essas procuras vai depender intimamente do que acontece no país, e isso depende da renda, é um custo que não é barato”, explica Guilherme.

Em 16 meses de funcionamento, entraram 12 pacientes na casa, e atualmente há oito. Para Guilherme, é uma boa média, apesar de o local ter capacidade para 20 idosos.

Para 2020, o enfermeiro espera aumentar o número de hóspedes – mas, para ele, não compensa atingir esse objetivo às custas de baratear o preço. “Nos primeiros três meses a gente até pode fazer um preço com abatimento, mas é quando a família realmente precisa do serviço naquele momento e não tem como negar ajuda a quem está sofrendo. Mas financeiramente há custos e a responsabilidade é grande”.

Entre os serviços que a casa oferece estão atendimento de nutricionista, fisioterapeuta, clínico geral, enfermeiros e técnicos de enfermagem durante 24 horas por dia, além de coleta de exames laboratoriais.

“Por isso não dá para fazer mais barato, porque a conta não vai fechar. Então não vale a pena fechar esses contratos de menor valor porque vai ter que arcar com as despesas. Abrir mão do preço é abrir mão dos serviços”.

Com a estabilidade no número de hóspedes, o negócio não deu prejuízo. Em alguns meses, a receita empatou; em outros, superou as despesas.

Mas os últimos quatro meses de 2019 trouxeram grande alívio financeiro para o casal. Com isso, eles puderam terminar a instalação de câmeras por toda a casa e concluir 80% da obra dos quatro quartos no andar superior. “Se chegar hóspede pedindo o quarto, em 10 dias fica pronto”, garante Guilherme.

Os enfermeiros contam que agora se sentem mais preparados para lidar com o negócio.

“A gente foi treinado para lidar com pessoas, mas não com impostos, finanças, contabilidade. Até você entrar ali e perceber que você não é mais enfermeiro, que você precisa de habilidade com finanças, com administração, você perde um pouquinho, você fecha no vermelho sem perceber, pela inabilidade de lidar com o próprio negócio. Agora me sinto mais seguro para lidar com essas questões”, diz Guilherme.

Susiene toma conta de tudo enquanto Guilherme trabalha meio período em um hospital – ele quer manter o emprego para complementar a renda.

“Nós poderíamos ter feito um 2019 melhor se nós tivéssemos a mesma habilidade que nós adquirimos no último trimestre”, comenta Guilherme.

Guilherme e Susiene ganharam experiência para tocar o negócio e esperam aumento no número de hóspedes — Foto: Celso Tavares/G1

O casal evita gastos pessoais pensando no negócio e no próprio orçamento familiar. “Tem que separar a vida pessoal do negócio, 2019 foi uma educação financeira significativa, dá para viajar, mas tem que ser uma viagem modesta”, diz o enfermeiro.

Guilherme tem esperança de que a economia vai melhorar e vai se refletir na situação das famílias, que poderão arcar com o preço cobrado em sua casa de repouso.

Para 2020, ele espera aumentar o número de pacientes. “Aí posso dizer que está bom. A gente agora quer investir na ferramenta de marketing de forma permanente, foi uma coisa que faltou em 2019. A gente fica tão ligado em cuidar dos idosos, mas precisa olhar a parte de divulgação do negócio. Porque dois ou três hóspedes a mais fazem uma diferença muito grande”, afirma.