Enquanto economia ainda não dá sinais de recuperação robusta, pequenos empresários buscam soluções criativas para seus negócios.

Brasileiros contam se sentiram ou não alguma melhora da economia no terceiro trimestre de 2019 — Foto: Fábio Tito e Karina Trevizan/G1

Foram divulgados nesta terça-feira (2) os dados sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre e, mais uma vez, os números mostram que a economia segue em ritmo ainda lento. Na comparação com os três meses anteriores, o crescimento foi de 0,6%, acumulando alta de apenas 1% nos últimos 4 trimestres.

Em meio a essa demora de uma recuperação mais robusta, quem vive a chamada “economia real” busca alternativas para não ficar para trás.

Ao final do primeiro trimestre e no encerramento do segundo. Eles contam como a situação da economia vem se refletindo em seus negócios, e falam sobre suas impressões sobre o terceiro trimestre. Os entrevistados também comentam o que mudou em suas empresas nos últimos meses e quais são suas expectativas e planos para os próximos meses.

As histórias

Para o casal de enfermeiros Guilherme George Souza Silva e Susiene Dias Vitorino da Silva, que começaram o ano bastante empolgados com seu novo negócio e nos meses seguintes mudaram bastante suas expectativas ao se deparar com o cenário da economia, o terceiro trimestre foi marcado como um período em que as coisas começaram a se tranquilizar. Mas, mesmo com alguma perspectiva de alívio, eles preferem manter a cautela.

“Eu estou com medo de falar de economia e de perspectivas porque eu comecei 2019 tão eufórico. Mas a gente sofreu”, explica Guilherme.

Em um movimento oposto, o casal de bailarinos Patrícia Pressutti e André Matos, que estavam aguardando o país deixar a crise de vez para colocar em prática planos de investimentos mais robustos na estrutura de sua escola de dança em São Paulo, decidiram parar de esperar e adequar o projeto ao cenário atual: a partir de janeiro, a empresa vai se mudar para um espaço maior e com mais estrutura, mas o custo vai cair pela metade. Isso porque eles passarão a dividir espaço com outra escola, em esquema de coworking.

“Dessa necessidade surge a criatividade de enxergar possibilidades”, diz André. “Justamente o mercado parado faz a gente inovar. Então, esse cenário é que fez a gente criar, na verdade, coragem para fazer essa mudança”, complementa Patrícia.

Já Luana Crescêncio da Silva e Luis Gustavo da Silva não fizeram tantas mudanças em seu buffet de festas em domicílio neste trimestre, mas contam que o negócio tem se transformado. Segundo eles, a demanda de clientes segue aquecida (eles tiveram em julho o melhor mês desde que a empresa foi criada), mas o público mudou. Com os reajustes recentes de preços, eles passaram a atingir clientes de maior poder aquisitivo. Mesmo assim, a quantidade de eventos segue crescendo, suavizando a preocupação que eles tinham de consolidar um modelo de negócios que surgiu em meio ao corte de gastos das famílias na crise.

“A gente sente que o nosso serviço já está consolidado, que as pessoas já buscam como uma alternativa mesmo não só por conta da crise, mas uma alternativa que já se fixou”, diz Luana.

Veja abaixo os relatos das três famílias sobre o terceiro trimestre de 2019 e suas impressões sobre a economia:

Guilherme e Susiene

Para Guilherme e Susiene, os primeiros meses à frente de seu negócio próprio trouxeram várias dificuldades, mas a situação já dá sinais de mais tranquilidade. — Foto: Fábio Tito/G1

Depois de um começo mais difícil que o esperado, a casa de repouso dos enfermeiros teve meses mais tranquilos no segundo semestre do ano. Isso porque eles terminaram de pagar alguns investimentos que tinham feito de forma parcelada e, com isso, as receitas passaram a superar as saídas mensais da empresa. “Mas assim, de uma maneira bem discreta”, pondera Guilherme. “Começou a gastar menos. Não é que rendeu muito mais.”

A cautela tem motivo, segundo ele: eles estão “mais com o pé no chão” que no começo do ano. Por isso mesmo, por exemplo, a obra de ampliação do espaço para abrir mais vagas no andar de cima da casa, que havia sido interrompida no trimestre anterior, segue parada até as duas vagas que restam no andar de baixo serem preenchidas.

“Não há necessidade de mexer com obra enquanto a gente não tem certeza. Vamos despender dinheiro para começar a mexer em infraestrutura? E se não vier?”, diz Guilherme sobre o adiamento do investimento.

Ele diz que não se arrepende de ter iniciado a obra, embora pondere que talvez tenha se precipitado. Mas se diz contente por estar ganhando experiência para não cometer os mesmos erros. “Tem a parte de adquirir experiência. Porque se a gente tivesse essa ideia de números, não começaria a obra no meio do ano. Esperaria todo o ano, seguraria mais dinheiro. Não deixaria o dinheiro em material de construção, deixaria numa poupança. Seria utilizado para essa finalidade, mas não naquele momento”, comenta.

Os enfermeiros Guilherme e Susiene no andar superior; as obras no local devem aumentar a capacidade da casa de repouso, mas eles decidiram adiar a conclusão. — Foto: Fábio Tito/G1

Mas, embora Guilherme acredite que a economia em 2020 vá ficar “do mesmo jeitinho que em 2019” e “crescer pouco”, os dois seguem apostando que seu negócio vai dar certo. “Eu me mantenho dizendo a mesma coisa: a casa só andou e vai continuar andando porque a gente é da área e sabe o que está fazendo. (…) E a gente acabou aprendendo a lidar com dinheiro, a saber direitinho o momento certo de usar. Vira um jogo até. Se você errar aqui, não vai sobrar lá. A gente adquiriu experiência financeira ao longo dos dez meses deste ano. Agora a gente entendeu como funciona.”

Patrícia e André

Patrícia e André dizem que já percebem sinais de que a economia vai melhorar em 2020 — Foto: Karina Trevizan/G1

O segundo semestre foi movimentado para os bailarinos. Primeiro porque, diferente do que aconteceu em 2018, neste ano eles viram crescer a demanda por participações em eventos privados, que vinha diminuindo desde a crise. Mas, em 2019, eles já tiveram aumento na participação em eventos de Natal em shoppings e outras apresentações. “Voltaram com uma força maior do que estava antes”, conta André.

Enquanto isso, na escola de dança o segundo semestre foi marcado pela abertura de novas modalidades – que, segundo eles, despertaram bastante interesse entre os alunos. No entanto, a previsão é que essa aceitação só se converta em um número significativo de novas matrículas em janeiro, já que o final do ano, tradicionalmente, é um período de maior saída de alunos por conta da preparação para as férias e festas.

De todo modo, o movimento gerou otimismo para o ano seguinte. “Eu espero… Aliás, ‘eu espero’ não. Eu já estou vendo a coisa melhorar muito o ano que vem”, diz Patrícia.

André concorda, e complementa: “Houve uma redução também na concorrência, muitas escolas fecharam, e isso acaba centralizando um pouco mais. Então ajuda a prever um pouquinho do cenário para o começo do ano.”

Mas a grande aposta de melhoria para eles é pela mudança de endereço da escola, após 12 anos no mesmo local. Os dois tinham planos para melhorar a infraestrutura da escola, mas a crise adiou os investimentos. Com a economia demorando para se recuperar de vez, a saída, então, foi mudar os planos. Com isso, os últimos meses foram usados para pesquisar e planejar soluções.

Os bailarinos André e Patrícia se despedem do espaço de sua escola de dança, que vai mudar de endereço após 12 anos no mesmo local — Foto: Karina Trevizan/G1

“A gente estava buscando alternativas para melhorar a estrutura. Mas, com o cenário, fica complicado arriscar um investimento alto. E acabamos, com conhecidos que também têm escola na região, propondo uma parceria de uma prática que já é algo mais novo no mercado, o sistema de coworking. Vão ser duas empresas trabalhando no mesmo lugar, compartilhando o local e dividindo esses custos, no mínimo, pela metade. Isso dá um fôlego enorme para a gente poder investir em outras áreas”, conta André.

A mudança é a grande aposta deles para que, depois de vários meses de economia em marcha lenta, o crescimento da escola finalmente se consolide com mais força. Os bailarinos comentam que o mercado lento por conta da crise acabou motivando essa movimentação. “Isso nos fez ter força de mudar e fazer esse cenário modificar, pelo menos para nós. OK, o mercado está parado, mas a gente vai continuar se movimentando”, diz Patrícia.

Luana e Luís

Luana e Luís comemoram a procura aquecida de clientes pelos serviços de seu buffet, mesmo com o reajuste de preços — Foto: Fábio Tito/G1

A procura dos clientes continuou satisfatória para o buffet do casal de Guarulhos (SP). No mês de julho, Luana e Luís chegaram a fazer 7 festas em um mesmo final de semana. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde que a empresa foi criada – em 2013, de maneira informal. “Eu considero julho um dos melhores meses que nós tivemos de toda a história da empresa”, diz Luana.

Os dois já vinham colhendo há alguns meses os investimentos em equipamentos e estrutura para fazer mais festas em um mesmo dia, e o faturamento seguiu crescendo. Mas, até a primeira metade do ano, o casal seguia com a preocupação de como consolidar um modelo de negócios que surgiu e cresceu na crise, quando as famílias passaram a procurar por serviços mais baratos.

O receio era de como ficaria a demanda quando a economia começasse a se recuperar com mais vigor. Isso ainda não aconteceu, mas, nos últimos meses, Luana e Luís acreditam ter encontrado a resposta. Isso porque eles fizeram um reajuste de preços, e perceberam que passaram a atingir clientes de maior poder aquisitivo.

“Alguns clientes que, por exemplo, fizeram festa com a gente antes não conseguiram mais fazer em 2019 por conta do reajuste anual. Mas a gente começou a alcançar um outro público. Junto com a mudança de preços, também mudaram os clientes”, conta Luana.

Mesmo com o preço maior, o número médio de eventos por semana se manteve estável. Para eles, esse é um sinal de que o modelo de festas infantis a domicílio se consolidou no mercado como opção, e não mais como apenas uma alternativa mais barata que buffets.

“Esse público de maior poder aquisitivo que a gente alcançou procura o tipo de festa que a gente faz para tirar o filho do eletrônico”, acredita Luís. “A gente trabalha muito com alimentação artesanal, e isso também é uma coisa que as pessoas estão buscando muito – o que também favorece o nosso estilo”, complementa Luana.