Como trabalhadoras informais estão sendo afetadas pela pandemia do coronavírus no Brasil

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Maioria em trabalhos informais, mulheres perdem renda e ainda não têm acesso ao benefício anunciado pelo governo. Diante da crise, temem não ter como alimentar os filhos

“Sou diarista, gente, e devido à crise do coronavírus, próxima semana qualquer kitnet no bairro sai por R$ 110,00”. Esse foi o primeiro post de Jennifer Monah, 30 anos, em um grupo no Facebook de um bairro de classe média de São Paulo. No dia seguinte, ela fez uma nova postagem:  “Sei que todo cuidado é pouco com o coronavírus. Mas tem muita mulher sozinha que sustenta as crianças e a casa. Eu tô num mato sem cachorro (…) Trabalho de máscara, luva, o que for preciso”.

Sem estabilidade, sem possibilidade de trabalhar de casa, sem direitos trabalhistas e sem benefícios do governo, Jennifer é o retrato de como as trabalhadoras informais estão sendo afetadas pela pandemia do coronavírus (Covid-19) no Brasil.

Jennifer, mulher negra, moradora de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, é mãe solo de quatro filhos (que têm entre dois e 16 anos). O pai das crianças não tem emprego fixo e paga cerca de 300 reais por mês de pensão. É com seu trabalho de diarista que Jennifer garante a maior parte do sustento da casa.

Assim que o governo federal anunciou o voucher de 200 reais para trabalhadores informais, Jennifer saiu de casa para solicitar o seu. Ao chegar no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) mais perto de sua casa, descobriu que o valor ainda não estava disponível. “Eles me informaram que isso só vai ser liberado se a pandemia continuar. E daí vai ter que fazer agendamento do cadastro por telefone, mas os CRAS vão fechar”, conta ela, questionando a efetividade da medida.

A reportagem procurou o Ministério da Economia, que informou que os prazos e processos para liberação do dinheiro ainda dependem de ato normativo, que será enviado ao Congresso Nacional.

Questão de raça e gênero

O trabalho informal é uma questão de raça e gênero no Brasil: 47,8% das mulheres negras têm trabalho informal, segundo a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE. “O recorte adicional por sexo nas atividades econômicas revela que a participação das mulheres no trabalho informal é superior à dos homens para a maior parte dos grupos de atividade econômica”, concluem os autores da pesquisa, que faz uma análise das condições de vida dos brasileiros.

Mulheres de forma geral são também maioria entre os desocupados (sem trabalho formal ou informal): a taxa de desocupação entre homens é de 9,2%, enquanto a de mulheres é de 13,1%, segundo a PNAD Contínua, do IBGE.

Elas são também a maioria em profissões de serviço que são diretamente afetadas pelo isolamento social: trabalhadoras domésticas (categoria em que 73% não têm carteira assinada, segundo o IBGE), manicures, massagistas, trabalhadoras sexuais, entre outras.

“Sob qualquer perspectiva que a gente olhe, a tendência é que o impacto seja maior para as mulheres”, afirma Marilane Teixeira, doutora em desenvolvimento econômico e gênero pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para ela, desde os impactos diretos do trabalho informal até os indiretos relacionados aos cuidados com crianças e doentes, passando pelo impacto a longo prazo de um possível aumento no desemprego e inflação, vão atingir com mais força as mulheres.

Informalidade e falta de trabalho

“Quando falamos em mulheres no Brasil, é uma parcela muito pequena que está em casa, trabalhando à distância. Há um número muito grande que não tem a possibilidade de ficar em casa. Porque quando você é informal, se deixa de ir para o trabalho, deixa de ganhar”, diz Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Centro de Estudos em Negócio do Insper.

É o caso da ambulante Maria de Fátima Lopes, 53 anos, que vende tapiocas na saída do Metrô Santa Cecília, região central de São Paulo. Apesar da queda do movimento pela metade na última semana, ela seguiu indo para o ponto com seu carrinho. “Logo fica pior que cemitério, daí eu vou ficar em casa. Fazer o quê?”, falou ela no fim da semana passada. Agora, parou por falta de movimento.

Além de diminuir a circulação de pessoas nas ruas, as medidas de prevenção contra o coronavírus têm reduzido a contratação de serviços pessoais. A manicure Deise Cristina, 36 anos, aluga um espaço em um salão de beleza, onde oferece seus serviços. Na semana passada, a procura já caiu em mais da metade e, agora que o salão não está mais abrindo,  não sabe como vai pagar as contas. “A mulher é a pessoa mais afetada. A mãe é bem mais preocupada que o pai, é a pessoa que cuida”, diz Denise, que tem dois filhos e vive com o marido que está desempregado.

“Temos uma economia muito baseada em comércio de serviços. Quase 70% do PIB está relacionado ao comércio e consumo das famílias. E isso é afetado”, afirma a economista Marilane Teixeira. Ela destaca que além da perda de renda, os profissionais informais não têm proteção social. “Temos quase 25 milhões de pessoas que trabalham por conta própria. Uma porcentagem alta das mulheres negras não contribuem com o INSS. Elas vão sofrer com o vírus e com a condição de não ter renda”, diz a economista da Unicamp.

Para profissões não regulamentadas, como a das profissionais do sexo, a situação ainda é mais extrema. “Esse é o grande problema de não ter o trabalho sexual regulamentado. Em um momento de pandemia, quando as pessoas têm que deixar de trabalhar, ficamos de fora de qualquer benefício, nos resta o desespero”, diz Santuzza Alves, coordenadora do Coletivo Rebu de Trabalhadoras Sexuais, Cis, Trans e Travestis. Segundo ela, o número de clientes caiu 70% desde que a crise começou. Ela conta que a Prefeitura de Belo Horizonte, onde vive, decretou o fechamento das boates, casas de massagem e estabelecimentos em geral onde elas trabalham, por medida sanitária.

Exposição a riscos

Para quem ficar em casa e não trabalhar não é uma opção, a exposição ao coronavírus é maior e nem todas têm consciência do risco da pandemia. A primeira morte por coronavírus no Rio de Janeiro foi justamente de uma trabalhadora doméstica. Com 63 anos, ela contraiu o vírus da patroa, que esteve na Itália e não avisou que estava sob suspeita da doença.