Baptizaram-na “Operação Barão Invisível”. Três anos depois de o Expresso ter publicado uma investigação com esse título sobre Nicola Assisi, um dos principais brokers da ’Ndrangheta (máfia calabresa italiana), incluindo sobre a sua passagem por Lisboa, conseguiram capturá-lo em São Paulo.

oi uma incursão de surpresa, meticulosamente preparada. A Polícia Federal brasileira conseguiu deter esta segunda-feira de manhã os cidadãos italianos Nicola Assisi e o seu filho Patrick Assisi, além de outros suspeitos, num complexo residencial em Praia Grande, na costa do Estado de São Paulo.

Os Assisi são considerados pelas autoridades europeias e sul-americanas dois dos maiores brokers de cocaína no mundo inteiro, estando identificados como os principais fornecedores desta droga para a ’Ndrangheta, como é conhecida a máfia calabresa em Itália. Ambos tinham mandados de captura emitidos contra eles por um tribunal em Turim, por terem sido condenados por tráfico internacional de estupefacientes. Nicola Assisi, que andou foragido à justiça durante mais de 20 anos, terá agora de cumprir 14 anos na prisão.

A operação policial desencadeada esta segunda-feira foi baptizada com o nome “Barão Invisível”, inspirado no título de uma investigação publicada pelo Expresso em 2016 e coordenada pelo IRPI (Investigative Reporting Project Italy), em Itália. As autoridades brasileiras contaram com a colaboração dos Carabinieri — a polícia militar — de Turim, uma cidade italiana onde os Assisi criaram a sua rede de tráfico internacional de droga durante a década de 1990.

Pai e filho foram detidos numa casa de luxo junto à praia, numa área considerada como estando controlada pelo grupo brasileiro de narcotraficantes Primeiro Comando da Capital.

Durante a conferência de imprensa em São Paulo, a polícia explicou que se tratou de uma operação difícil e demorada. Antes de avançarem para as detenções, foi montada uma vigilância cuidadosa. A família italiana usava medidas sofisticadas de segurança, que incluíam câmaras capazes de filmar num raio de 360 graus e também escolta armada. A polícia acabou por descobrir depois, durante a rusga à casa, que tinha sido construído um complexo sistema de esconderijos e passagens secretas.

As autoridades admitiram que as detenções não representam o fim da investigação. O Ministério Público e a Polícia Federal querem agora saber se os italianos contaram com ajuda de funcionários públicos brasileiros para evitar serem descobertos, já que, entre outras coisas, foram encontrados no apartamento vários passaportes que lhes permitiam usarem identidades falsas. Foram ainda apreendidas duas armas — uma Beretta e uma Glock — e uma soma elevada de dinheiro vivo, sobretudo em reais.

De acordo com a polícia brasileira, a Operação Barão Invisível está relacionada com a apreensão recente de uma tonelada de cocaína em Santos, sendo que a maioria da droga capturada recentemente no porto dessa cidade, que fica próxima de São Paulo, poderá estar ligada a este grupo de traficantes.

Nicola e Patrick têm estado a viver no Brasil desde 2013, sendo que o pai chegou a ser detido em Lisboa em agosto de 2014, acabando por fugir depois de, ao fim de três meses, o Tribunal da Relação ter decidido colocá-lo em prisão domiciliária.

Tal como o IPRI revelou, numa investigação conjunta que desenvolveu com o Expresso e com os jornais Convoca (no Perú) e ABC Paraguay, os Assisi estavam a trabalhar com o Primeiro Comando da Capital tanto no Perú como no Paraguai — e sobretudo a partir de Pedro Juan Caballero, uma cidade que fica na fronteiro com o Brasil e palco de muitos negócios entre grupos de narcotraficantes. Essa investigação revelou que os Assisi registaram uma pequena empresa comercial chamada Poli Pat 9 junto de um escritório de advogados localizado em Ferraz de Vasconcelos, uma área nos arredores de São Paulo e que é considerada como um centro de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital.

Este tinha sido o último indício deixado pelos Assisi sobre a sua eventual localização. Como pai e filho continuaram a manter o contacto com a ‘Ndrangheta em Itália, isso acabou por levar os Carabinieri a encontrar o rasto da família.