SOS Mata Atlântica explica que Rio Shangrilá, que abastece Tietê, é protegido por parque, e que Córrego da Água Preta, recebeu obras de saneamento da Prefeitura na gestão Haddad.

Rio Tietê, o maior do estado de São Paulo — Foto: Reprodução/TV Globo

Os dois únicos afluentes limpos do Rio Tietê ficam na cidade de São Paulo, de acordo com um relatório da SOS Mata Atlântica divulgado na quarta-feira (18) que avaliou 99 pontos ao longo do curso d’água.

O estudo da ONG monitora 576 km do Tietê, que corta o estado de leste a oeste ao longo de seus 1.100 km, com nascente em Salesópolis, no interior de São Paulo, e foz no Rio Paraná, no município de Itapura. Para obter os dados, técnicos de diversas entidades parceiras da SOS Mata Atlântica analisam a qualidade da água por meio dos rios, córregos e mananciais que drenam para o Tietê.

No ciclo mais recente de monitoramento, 2018/2019, a mancha de poluição aumentou em relação aos últimos seis anos e atingiu uma extensão de 163 km de água qualidade ruim e péssima, entre os municípios de Mogi das Cruzes e Cabreúva.

Paralelamente, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) investiu R$ 188 milhões em 2019 no Projeto Tietê, uma queda de 16% no programa na comparação com o mesmo período de 2018, quando R$ 225 milhões foram investidos.

Após um ano de análises mensais, os indicadores da SOS Mata Atlântica revelaram que apenas 2 dos 99 pontos monitorados apresentaram boa qualidade da água no ciclo 2018/2019. Ambos os trechos estão no município de São Paulo, o mais urbanizado entre todos aqueles atravessados pelo rio.

O que revelam

Um dos pontos é o Rio Shangrilá, que fica dentro do Parque Municipal Shangrilá, no Grajaú, extremo sul da capital paulista. O Rio Shangrilá está aparentemente distante do Rio Tietê, mas como compõe a bacia do Rio Pinheiros, o principal afluente do Tietê, ele também é afluente.

“O Shangrilá faz parte de uma micro bacia, que está dentro da bacia do Pinheiros, que está dentro da bacia do Tietê. O Tietê tem mais de 193 grandes rios e córregos. Só de riachos, mais de mil”, explicou Malu Ribeiro, especialista em águas da SOS Mata Atlântica.

“Ele se manteve com a mesma boa qualidade de água que apresentou em 2018 por dois motivos: está dentro de um parque, em uma área protegida, e possui um engajamento da comunidade, que cobra ações do poder público. Essa é a prova da importância de áreas naturais que exercem a função de proteção dos rios”, continuou Malu.

Parque Shangrilá protege rio de mesmo nome que abastece o Rio Tietê, na Zona Sul de São Paulo — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

O outro afluente do Tietê que apresentou boa qualidade na última medição foi o Córrego Água Preta, que fica na região da Pompeia e do Sumaré, na Zona Oeste da cidade. “Do mesmo modo, este córrego também corre para o Pinheiros, que corre para o Tietê, e seu bom resultado ocorreu por meio do investimento em saneamento empreendido pela Prefeitura”, afirmou Malu Ribeiro. “Essa região também possui engajamento da comunidade, que reivindica a construção de um Parque Linear no trecho”, completou.

Malu Ribeiro explicou ainda que a medição feita pela SOS Mata Atlântica das águas dos afluentes, e não do Rio Tietê, é consciente, já que o retrato das rios da bacia explica a situação do rio principal.

“Para entender a qualidade do rio é preciso medir seus afluentes. Existem trechos que recebem água boa e se recuperam, como na altura dos rios Jundiaí e Sorocaba, no interior, ou mesmo na região de cabeceiras, como Salesópolis e Biritiba-Mirim. Eles vão ajudando o rio maior e é por isso que precisamos do retrato dos rios da bacia. É isto que o Governo do Estado tem feito para limpar o Rio Pinheiros e nossa ideia é monitorar os córregos do Pinheiros também”, antecipou.

Obras de saneamento no córrego da Água Preta durante a gestão Fernando Haddad — Foto: Heloisa Ballarini/Prefeitura de São Paulo/Divulgação

Demais trechos

A metodologia do estudo da SOS Mata Atlântica considera os seguintes parâmetros: temperatura da água, temperatura do ambiente, turbidez, espumas, lixo flutuante, odor, material sedimentável, peixes, larvas e vermes vermelhos, larvas e vermes brancos, coliformes totais, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), pH, fosfato e nitrato.

Os indicadores de qualidade da água são levantados desde 2010 pela SOS Mata Atlântica. Os melhores valores obtidos até a data ocorreram em 2013/2014, quando a mancha de sujeira (com qualidade péssima e ruim) ficou restrita a 71 km, entre Guarulhos e Pirapora do Bom Jesus.

As águas com qualidade ruim e péssima foram identificadas em 29 dos 99 pontos, ou seja, 28,3% da extensão monitorada.

“O ciclo 2013/2014 coincide com a 3ª etapa do projeto de despoluição, que corria redondo, em ritmo acelerado e com investimento 50% maior do que o atual. No entanto, a maior parte desta mancha, que era menor do que hoje, era de qualidade péssima. Agora, apesar da mancha maior, a qualidade da água melhorou, comparativamente. Aquela época de seca acabou concentrando poluentes”, destacou Malu Ribeiro, especialista em águas da SOS Mata Atlântica.

O relatório da ONG destaca ainda que, considerando apenas os trechos com qualidade péssima no ciclo 2018/2019, houve redução da mancha, que se estende por 18 km, entre o Cebolão e Barueri, mas no ciclo anterior, 2017/2018, se espalhava por 60 km, até Guarulhos.

Os demais trechos aferidos (68,7%) apontam qualidade regular, no limite ou fora dos padrões definidos na legislação para usos como recreação, irrigação, navegação e abastecimento público.

Recomendações dos pesquisadores

Os pesquisadores atribuem o aumento da mancha de sujeira no Tietê a:

  • temporais na região metropolitana de São Paulo entre fevereiro e julho deste ano, com transporte de poluição, sedimentos e resíduos sólidos para o rio.
  • Urbanização intensa, com perda de cobertura florestal.
  • Chuvas reduzidas nas bacias do Alto e Médio Tietê, com volumes 20% inferiores à média dos últimos 23 anos favoreceu a concentração de contaminantes, já que a menor vazão implica na perda de capacidade de diluição dos poluentes.

Os pesquisadores indicam que para melhorar o panorama, o poder público deveria:

  • Ampliar os serviços de saneamento básico.
  • Ampliação de áreas protegidas, com a implantação de parques lineares e de várzeas.
  • Transparência nas informações detidas pelo Poder Público.