O governo do estado gastou R$ 3,6 bilhões dos R$ 6,2 bilhões, entre 2010 e 2019. Gestão Doria alega que valor orçado ‘não significa que está disponível para investimento’.

Em dez anos, o governo de São Paulo deixou de usar 42% da verba contra enchentes no estado, o equivalente a mais de R$ 2,5 bilhões do montante orçado.

Segundo levantamento feito pela GloboNews, entre 2010 e 2019 foram usados somente R$ 3,6 bilhões dos R$ 6,2 bilhões previstos para serem investidos em ações preventivas.

O valor corresponde a 58% do orçamento estimado para período. A análise foi feita com base na execução orçamentária disponibilizada pela Secretaria Estadual de Fazenda e Planejamento.

Questionada, a gestão de João Doria (PSDB), disse, por meio de nota, que, além de combate a enchentes, a verba também é destinada a obras de saneamento e não apenas para minimizar os efeitos das chuvas.

 — Foto: Arte/G1

O texto ainda afirma que o orçamento de 2019 foi feito pela gestão anterior e que o valor previsto “não significa disponível para investimento, uma vez que não prevê frustração de receitas e subestima despesas de custeio.”

A gestão Doria alega que o valor citado pela reportagem “não prevê obras de saneamento executadas pela Sabesp, de mais de R$ 3 bilhões no ano passado.”

Também indagado pela reportagem, o ex-governador Marcio França (PSB) disse que nos oito meses da gestão, ‘mesmo com restrições legais do ano eleitoral e orçamento fechado pelo antecessor, foi possível fazer o maior investimento em números absolutos do período” e ressaltou que “tais obras são de competência municipal”.

Procurado, ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) não se manifestou.

Interesse X planejamento

Para o biólogo e vice-presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade, João Paulo Capobiano, a falta de investimento reflete um a espiral de um problema típico das administrações públicas no Brasil.

“Na verdade, isso é uma característica das ações do governo nas atividades que não ocorrem ao longo de todo o ano, ou seja, só se lembra dos problemas das enchentes quando? Na época das chuvas. Depois vem o período seco, outras prioridades surgem, o governo deixa de atuar no planejamento, na ação preventiva permanente, para voltar a atuar no período de crise. Isso é uma característica do serviço público brasileiro, que não incorpora de forma permanente e organizada essas questões que dizem respeito, inclusive, às mudanças climáticas”, afirma o especialista.

Caos

A chuva forte que atingiu São Paulo a partir do fim da tarde deste domingo (9) provocou destruição e caos. A tempestade fez rios transbordarem, causou dezenas de alagamentos, deslizamentos e travou a cidade.

A Ponte das Bandeiras, na Marginal Tietê, por exemplo, chegou a ficar cerca de 17 horas alagada. Bairros da Zona Norte, como a Vila Guilherme, e a Vila Leopoldina, na Zona Oeste da cidade, estão entre os inúmeros prejudicados. A Avenida Mofarrej, na Zona Oeste, foi a última a ser liberada.

A via ficou mais de 24 interditada por conta de alagamentos intransitáveis.

A circulação dos transportes públicos (ônibus, metrô e trens) ficou comprometida, e a Prefeitura suspendeu o rodízio de veículos nesta segunda e terça.