Praça da Sé, em São Paulo, está neste momento com suas arvores enfeitadas com embalagens de aguardente conhecida por “Corote”, “corotinho”, ou “barrigudinha”, no popular, e consumida por moradores de rua da capital paulista durante a pandemia de Covid-19. Em muitos aspectos lembram árvores de Natal. Corote é bebida alcoólica barata (com valor entre R$ 3,00 e R$ 4,00) e hoje encontrada em bares e mercados e consumida país afora pela população pobre.

Com destaque pelos jovens de condição social precária e, principalmente, por pessoas em completa situação de abandono, como os que vivem largados, à margem de tudo, nas ruas de São Paulo, a mais rica e importante cidade brasileira, porém socialmente uma das mais desiguais.

Ainda que sejam motivo de piadas, brincadeiras e risadas por quem passa pela Sé (o Marco Zero da cidade e antigo centro financeiro de São Paulo) penso que a instalação das embalagens de “corotes” em árvores do centro, tal como mostram as fotos anexas (obra do meu amigo fotografo, Carlos Henrique Medeiro de Abreu, em passagem pelo local), pode ser uma forma de dar visibilidade (um protesto, talvez?), de chamar a atenção para aqueles que vivem na ruas e tornados invisíveis pelos poderes públicos, bem como o grosso da sua população que, mesmo se dizendo cristã, ignora e/ou finge ignorar o sofrimento, a dor, desses seres humanos em completo abandono e sofrendo perseguição pelos órgãos de repressão sem que lhes sejam dadas alternativa de sobrevivência.

Além de enfeites vejo essas embalagens de corote nas ditas árvores como obra arte (arte popular carregada de simbolismo e muita criatividade). Ainda que por ser um trabalho realizado por moradores e moradoras de rua por isso mesmo não houve até agora (e talvez não venha a ocorrer) o devido reconhecimento, como tal, por parte dos meios culturais, nem pela maioria da população que por lá circula.

J. R., 18/01/2021.