Além deles, outros quatro detentos manifestaram desejo de mover ação contra autor da obra escrita pelo preso Acir Filló, ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos. No livro, ele narra detalhes do dia-a-dia e os crimes cometidos pelos internos da penitenciária.

Os detentos Guilherme Longo e Carlos Sussumu decidiram mover ação contra o autor do livro “Diário de Tremembé – O presídio dos famosos”. A obra escrita por Acir Filló, que cumpria pena na P2 de Tremembé, onde estão abrigados presos de casos de grande repercussão, narra detalhes sobre a rotina na unidade e de crimes cometidos por internos.

A manifestação de que desejam mover ação contra o ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP) foi informada à direção do presídio nesta segunda-feira (19). Eles foram ouvidos após determinação da Justiça por causa da exposição sem autorização prévia.

Os 29 citados foram ouvidos nesta segunda-feira (19) e seis decidiram processar Filló. Entre entre eles estão Guilherme Longo e Carlos Sussumu. Presos como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Gil Rugai e Mizael Bispo optaram por não processar Filló, que foi transferido de presídio no começo do mês. Lindemberg Alves, condenado por assassinar a namorada Eloá, disse que ainda estava em dúvida.

Entre as alegações dos presos nos depoimentos coletados pelo VEC estão a que Acir não teria falado com eles, mas na verdade, coletado informações na internet e conversado com terceiros, elencando na obra o que seriam especulações como informações verídicas. Além disso, a capa da obra trazia imagens dos presos citados no livro, divulgação da imagem feita sem autorização prévia.

Os interessados em mover a ação pediram que a Defensoria Pública fosse acionada para o processo. Por nota, a Defensoria Pública informou que ainda não foi intimada sobre os presos citados no livro.

Defesa do ‘detento-escritor’

A defesa de Filló considera, com base em uma decisão do Supremo Tribunal Federal que afasta exigência prévia de autorização para biografias, que o detento não precisava de autorização para escrever o livro porque retratou perfis biográficos de colegas da P2.

Procurada novamente, a defesa reforçou o direto à liberdade de expressão e contestou a ação da Justiça, sobre ter acionado os presos para saber se eles desejam processar Filló ou não.

“O que realmente causa espanto à defesa do autor, é que as declarações dos presos mencionados na obra, tenham sido colhidas à partir de um ato de ofício da Juíza, quando na verdade trata-se de direito um personalíssimo”, diz a nota.

Capa e contracapa de livro de Acir Filló, alvo de investigação da Justiça — Foto: Reprodução
Capa e contracapa de livro de Acir Filló, alvo de investigação da Justiça — Foto: Reprodução

Polêmica com livro

A obra foi escrita pelo ex-prefeito com base em supostas entrevistas concedidas a ele e pesquisas na internet sobre os processos que envolviam os ‘presos famosos’ da P2. De acordo com Filló, ele escrevia os manuscritos e entregava para a esposa nas visitas, que digitava e repassava para a editora.

A obra foi publicada em julho, envolta em polêmicas. Em um dos capítulos, o autor narra que o ex-médico Roger Abdelmassih, que cumpria pena na unidade, teria fraudado o estado de saúde com a ajuda de um detento da enfermaria para conseguir pena domiciliar. Após a publicação, a Justiça determinou que Roger fosse submetido a nova perícia e atualmente ele está internado em um hospital penitenciário na capital.

Ainda na obra, Acir conta que Cristian Cravinhos, envolvido na morte dos pais de Suzane Richthofen teria dito que ela bateu nos pais no dia do crime. Ele nega ter dado essa declaração a Acir.

Por causa das declarações, a Vara de Execuções Criminais (VEC) abriu um procedimento disciplinar para medidas administrativas. Além de questionar os presos sobre o desejo de processar o autor, a Justiça determinou a proibição da venda da obra e a determinação de transferência de Acir, que foi levado para o Centro de Detenção Provisória 3 de Pinheiros, na capital.

O livro, classificado como biografia não autorizada, foi publicado em julho e passou a ser vendido na internet por R$ 59,90, até ter a venda proibida pela Justiça. Na sentença, a juíza Sueli Zeraik considerou que o livro não se trata de uma biografia, mas de “fofoca e mexerico”.