As pessoas chegaram a fazer festas no feriado de carnaval e no mês para quando foi adiado, em 1892 e 1912. Prefeitura de São Paulo anunciou que vai adiar o carnaval de rua e os desfiles das escolas de samba de 2021 devido à pandemia do coronavírus; ainda não há data definida.

Não é a primeira vez na história do Brasil que o carnaval é adiado. Nas duas outras vezes em que isso aconteceu, em 1892 e em 1912, a população não acatou a mudança e comemorou a festa nas duas datas: a oficial e a nova que havia sido determinada.

Nesta sexta-feira (24), o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou que vai adiar o carnaval de rua e os desfiles das escolas de samba de 2021 devido à pandemia do coronavírus. A nova data ainda não foi definida, mas, no caso dos desfiles, a Liga das Escolas de Samba de São Paulo propõe que a festa seja realizada a partir do final de maio ou começo de julho, em data ainda a definir.

A primeira vez em que a festa foi adiada foi em 1892. O ministro do interior decidiu mudar a data para 26 de junho motivado pelo lixo gerado pelo evento. Para o ministro, junho era um mês “mais saudável” do que fevereiro. Nesta época, ainda não existiam escolas de samba.

Nesta época, o carnaval começava a se enraizar no Rio de Janeiro e, em São Paulo, ainda era conhecido como entrudo, uma festa mais violenta, em que as pessoas saíam às ruas fantasiados para se atacarem com farinha, água, limões de cheiro e até dejetos humanos, segundo José Maurício Conrado, especialista em Carnaval e professor de Marketing da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A decisão não foi respeitada e relatos dão conta de comemoração de dois carnavais: um em fevereiro e outro em junho.

O segundo adiamento da festa popular foi em 1912. Uma semana antes do carnaval, morreu o ministro das Relações Exteriores, José Maria da Silva Paranhos Júnior, conhecido como Barão do Rio Branco. Como ele era tido como um herói nacional, o governo decretou o adiamento do Carnaval para 6 de abril, dois meses depois da data oficial. Também desta vez a data não foi respeitada e, outra vez, houve dois carnavais no Brasil.

“Eu acho que, desta vez, em 2021, há grandes chances de as pessoas pularem carnaval nas duas datas também”, diz Conrado.

O carnaval foi incluído pela Igreja Católica em seu calendário e ocorre 40 dias antes da quaresma.

Carnaval foi adiado pela segunda vez em SP em 1912 por causa de luto: o Barão do Rio Branco morreu uma semana antes da festa, mas população saiu às ruas e comemorou a festa do mesmo jeito — Foto: Liga-SP/Divulgação
Carnaval foi adiado pela segunda vez em SP em 1912 por causa de luto: o Barão do Rio Branco morreu uma semana antes da festa, mas população saiu às ruas e comemorou a festa do mesmo jeito — Foto: Liga-SP/Divulgação
Festa de carnaval em São Paulo em 1961 — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo
Festa de carnaval em São Paulo em 1961 — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo
Desfile de Carnaval na Rua Direita, região central de SP, por volta de 1905 — Foto: ESTADÃO CONTEÚDO
Desfile de Carnaval na Rua Direita, região central de SP, por volta de 1905 — Foto: ESTADÃO CONTEÚDO

De acordo com a Liga-SP, o desfile das escolas de samba como conhecemos atualmente começa a acontecer em São Paulo na década de 1930, mas só foi oficializado como concurso em 1968, na gestão do então prefeito José Vicente Faria Lima.

Atualmente, o carnaval de São Paulo é um dos maiores do país. Neste ano, cidade bateu recorde de público e do número de blocos: foram mais de 15 milhões de foliões nas ruas e 600 blocos. A prefeitura gastou R$ 36,6 milhões, e houve um retorno financeiro de R$ 2,3 bilhões para a cidade.

Gripe espanhola

Ao contrário do que ocorre agora, com a pandemia do coronavírus, durante a gripe espanhola, em 1919, o carnaval foi mantido e considerado “o melhor de todos os tempos”, segundo José Maurício Conrado.

“O carnaval funciona como válvula de escape. E naquele ano, as pessoas queriam tirar a sensação negativa que a gripe espanhola causou. Como Ruy Castro disse, foi o ‘carnaval da revanche, a grande desforra contra a peste que dizimara a cidade'”, afirmou Conrado.

O especialista conta que a Viradouro, escola de samba do Rio de Janeiro, vai levar para a avenida a história do carnaval que ocorreu durante a gripe espanhola.

“O carnaval sempre se conecta a momentos importantes. Nos 500 anos do Brasil, muitos abordaram o tema. A questão sanitária super complexa não deixaria de ser abordada”, disse.

Fonte: G1