Subprefeitura São Miguel Paulista, na zona leste, e Pinheiros, na zona oeste, também tiveram número zerado; especialista fala da importância da cobertura arbórea para a saúde da população

Na zona leste de São Paulo, as subprefeituras de São Miguel Paulista e Itaim Paulista não tiveram nenhuma muda de árvore plantada pela Prefeitura no primeiro semestre de 2020. Em 2019, o número de plantios foi de 1.013, em São Miguel, e 94, no Itaim – sendo esta última a subprefeitura com o número mais baixo naquele ano.

Fazia parte do Programa de Metas da gestão João Doria (PSDB), em 2017, plantar 200 mil novas árvores no município até o fim de 2020, com prioridade para as subprefeituras com menor cobertura vegetal – dentre elas, a do Itaim Paulista (formada pelo distrito homônimo e pela Vila Curuçá).

Itaim Paulista é uma das subprefeituras com menor cobertura vegetal | Eduardo Silva/32xSP
Itaim Paulista é uma das subprefeituras com menor cobertura vegetal | Eduardo Silva/32xSP

Em 2019, a meta foi reduzida pela gestão Bruno Covas (PSDB) ao plantio de 50 mil mudas até o ano seguinte. Segundo a Prefeitura, de janeiro 2019 a julho 2020, foram plantadas 58.653 mudas arbóreas na cidade.

Reprodução/32XSP

Árvores plantadas

Somam-se às regiões com menos árvores plantadas entre os meses de janeiro e junho de 2020 as subprefeituras de Pinheiros (0), Vila Mariana (1), Ermelino Matarazzo (2), Vila Prudente (28), Jabaquara (30) e Penha (33).

Na contramão, os melhores índices estão nas subprefeituras de Itaquera (2.986), Butantã (2.643), Campo Limpo (1.568), Santo Amaro (1.562) e Capela do Socorro (1.449).

Bruna Arantes, 30, mestra e doutoranda em recursos florestais na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), explica que as árvores têm um papel fundamental para melhorar a qualidade do ar na cidade, através da absorção de poluentes e materiais particulados que vêm, por exemplo, dos escapamentos de veículos.

“Ter poucas árvores nos bairros e, consequentemente, oferecer poucos serviços ecossistêmicos pode ser considerado um fator que contribui para o aumento de problemas respiratórios (somado a outros fatores, como moradores com predisposição a doenças respiratórias, maior número de crianças e idosos, e alto fluxo de veículos)”, conta.

A falta de arborização urbana influencia diretamente o microclima de uma região. Com isso, a sensação térmica é elevada em comparação a áreas mais arborizadas. Os locais com menos árvores também apresentam menor retenção da água das chuvas e até baixa presença de aves.

Reprodução/32XSP

A doutoranda também explica que a cidade de São Paulo possui uma característica muito específica, “que são grandes áreas de remanescentes florestais nas suas áreas periféricas, principalmente de mata atlântica”.

“Quando estamos falando de plantio de árvores pela prefeitura, deve-se desconsiderar todas as áreas de remanescentes, que oferecem sim grandes benefícios ambientais, mas estão muito mais inacessíveis e distantes da população do que quando comparados a parques, jardins e árvores de rua, que são os focos dos plantios”

Arborização e qualidade de vida

Bruna Arantes, mestra e doutoranda em recursos florestais na ESALQ/USP

Por isso, distritos ou subprefeituras com grande cobertura vegetal relacionada a reservas ambientais, como é o caso da Subprefeitura Parelheiros, no extremo sul da cidade, podem necessitar de um maior número de árvores plantadas para garantir melhores condições de saúde e bem-estar para os moradores.

“Bairros como Parelheiros e Marsilac, sem suas áreas de reserva, provavelmente vão apresentar áreas que são carentes de árvores e precisam de plantios”, comenta Bruna.

O que diz a Prefeitura

Parque Chácara das Flores, na Subprefeitura Itaim Paulista | Eduardo Silva/32xSP

Ao 32xSP, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) diz que dois fatores contribuíram para a redução de árvores plantadas na região das subprefeituras citadas: a baixa disponibilidade de locais que atendam aos critérios técnicos e a alteração do cronograma devido a situação de pandemia que a cidade enfrenta.

“A programação de plantio necessitou de ajustes a partir de março e os projetos foram realocados, visando minimizar a exposição dos profissionais ao coronavírus”, aponta a pasta.

Na região das subprefeituras de Itaquera e Butantã, segundo a SVMA, o número de árvores plantadas foi maior devido às características dos locais (áreas livres ou pavimentadas) disponíveis para o serviço.

“Na elaboração dos projetos de plantio é realizado um levantamento junto às outras secretarias no intuito de verificar se tais áreas estão realmente livres ou se há projetos destinados naqueles locais (obras, por exemplo)”, explica a Secretaria.

“Também são consultadas as concessionárias de serviços públicos para que se verifique a situação do subsolo (tubulações de água, gás e telefonia).”

Bruna Arantes explica que existem dois tipos de métodos para escolher e nortear as áreas de plantio. São eles, os locais possíveis, ‘onde tem espaço pronto e habilitado para plantar, que pode incluir terrenos baldios, parques, jardins’’ conforme explica a doutoranda, e os locais preferenciais, ‘que podem ser escolhidos por diversos motivos que coloca os locais em prioridade’

Os locais preferenciais podem incluir, por exemplo, bairros mais quentes, com maior poluição, menor quantidade de árvores, menor renda e menor número de parques. “Esse método ainda pode considerar as questões econômicas como, por exemplo, viabilidade de preços de espécies”, destaca Bruna.

Segundo a especialista, a maioria das prefeituras do estado de São Paulo se utiliza da metodologia de locais possíveis.

“Nessa metodologia, os locais com muita pavimentação não são o foco de plantio. Ao mesmo tempo, locais muito pavimentados tendem a ser mais quentes, menos resilientes a mudanças de temperaturas, ter mais carros circulando e, consequentemente, oferecem um ambiente menos saudável para seus habitantes”, analisa.

Rodovia Raposo Tavares, na Subprefeitura Butantã, na zona oeste de São Paulo | Ira Romão/32xSP

“Uma saída para as regiões muito pavimentadas é a substituição dessas por áreas verdes. Que vai desde a construção de praças, alargamento de calçadas verdes, tetos verdes, até saídas como o ‘espaço árvore’, uma metodologia sugerida pelo Programa Município Verde Azul, que substitui vagas de carros por canteiros de árvores, ideal para áreas centrais das cidades ou áreas muito adensadas e sem espaço para alargamentos de calçadas e criação de jardins”

Bruna Arantes, mestra e doutoranda em recursos florestais na ESALQ/USP