Iniciativa utiliza arteterapia para desenvolver autoconhecimento e resgate da autoestima de jovens de 10 a 18 anos. Eles ficam com 100% do valor da venda das peças.

Tirar os olhos das telas do celular e colocar as mãos no barro tem ajudado jovens em situação de vulnerabilidade social da Zona Leste de São Paulo a se reconectar consigo mesmos em um processo de autoconhecimento e resgate de autoestima que, segundo especialistas, ajuda a descobrir uma vocação. Além disso, ainda ajuda a gerar renda.

Em uma sala simples localizada no bairro de Artur Alvim, cerca de 50 jovens se revezam para usar o torno elétrico, a máquina-ferramenta utilizada para modelar o barro que ficou famosa com o filme “Ghost – Do outro lado da vida”, de 1990.

Nenhum desses jovens de 10 a 18 anos curiosamente assistiu à famosa cena em que a atriz Demi Moore modela uma peça com a ajuda do personagem do além-morte do ator Patrick Swayze. Não é uma referência para eles, que em sua maioria nasceram depois do lançamento do filme.

Aluno trabalha com cerâmica durante aula do projeto — Foto: Bárbara Muniz Vieira/G1

Ali, os jovens vão de maneira espontânea frequentar as aulas semanais do projeto Ser Âmica – um trocadilho com a palavra cerâmica, que desde 2007 ensina técnicas de cerâmica a jovens de família de baixa renda. O projeto tem apoio do governo estadual.

A Zona Leste é a região de São Paulo com taxa de desemprego maior (19,3%) do que a média da cidade (16%), de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) de 2017 da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Fundação Seade). De acordo com a pesquisa, a Zona Leste, ao lado da Zona Sul, é uma área mais periférica da cidade de São Paulo que se caracteriza pelo predomínio de famílias mais jovens e com elevada vulnerabilidade.

Mas não se trata apenas de produzir peças para gerar renda para o jovens e suas famílias. Como diz a idealizadora Elayne Mota Pereira, “em plena era da contemporaneidade, mexer no barro é voltar ao primitivo, às raízes e à ancestralidade”, em um processo de valorização do “ser” dos próprios jovens, que dá nome ao projeto.

Nayara integra o projeto há seis anos e atualmente é monitora — Foto: Bárbara Muniz Vieira/G1

“Aqui ninguém mexe no celular para se reconectar consigo mesmo. A arte ajuda o jovem a entender o que tem de bom dentro dele e olhar para isso. O projeto não tem intenção de tornar os jovens ceramistas, mas ajudá-los a descobrir qual é a sua vocação”, diz Nany, como prefere ser chamada.

A educadora, artista e arte terapeuta conta que tem ex-alunos cursando medicina, engenharia civil e educação física e acredita que a arteterapia exerceu influência sobre eles.

De acordo com a Associação de Arteterapia do Estado de São Paulo, (Aatesp), a arteterapia é a exploração criativa e a valorização da sensibilidade por meio da utilização de recursos artísticos expressivos. As técnicas, segundo a associação, permitem que o indivíduo entre em contato com seu próprio universo interno e lide com problemas e medos, proporcionando uma vida mais plena.

Nayara Prado da Silva, 20 anos, é uma das ex-alunas do projeto que viu sua vida mudar depois de passar a integrar o projeto. Ela começou a frequentar as aulas em 2013 como aluna e se tornou monitora em 2017.

“Antes de participar do projeto eu não tinha tanto contato com as pessoas, eu era mais tímida. Não era o que sou hoje. Comecei a me desenvolver aqui no projeto e hoje ajudo as crianças na produção de placas e esmaltação. É bem gratificante mesmo”, conta ela, que faz faculdade de biblioteconomia.

Nany conta que, além de ajudar o jovem a se conhecer melhor, a cerâmica ainda ajuda a lidar com a ansiedade, já que uma peça demora dias para ficar pronta e nunca se sabe o resultado final da peça antes de tirá-la do forno após a segunda queima. (veja no gráfico abaixo o passo a passo).

“O impacto que dá para sentir na vida do jovem é como isso acontece na vida deles. É muito legal a partir de barro transformar uma peça que é valorizada e vendida. A cerâmica ajuda a lidar com ansiedade e frustrações porque você não consegue modelar uma peça e já vê-la pronta. Todo o tempo de espera é mais importante que o resultado final. A gente busca a inteireza do ser.”

As peças são identificadas com o nome dos alunos e, quando comercializadas, eles ficam com 100% do valor da venda. Os alunos fornecem peças para restaurantes e expõe o trabalho em feiras e bazares, por exemplo.

Apesar da faculdade de biblioteconomia, Nayara não pretende se desvincular do projeto. “Eu tenho um sentimento por ele”, diz ela.

Para Nany, assim como não é possível prever como uma peça ficará antes de sair do forno, não há aprendizado que acabe quando se trata de autoconhecimento.

“O que é bacana na cerâmica é que a gente aprende que o ser humano é imperfeito, impermanente e inacabado”, resume a educadora.