Tide Setúbal, referência na zona leste, ampliou de 7 para 41 leitos de UTI para tratar pacientes com coronavírus. Parentes têm de ir diariamente ao local ouvir boletim médico

Na calçada do Hospital Municipal Tide Setúbal, na zona leste de São Paulo, a atendente de farmácia Gislene Gonçalves espera notícias do marido Sergio, internado em estado grave por causa do novo coronavírus. Ir até lá é a única maneira de saber do companheiro, já que a unidade não liga para os familiares para dar informações sobre os pacientes. “Eu estou com tosse há seis dias”, conta ela, que deixou o filho mais velho, também com sintomas, cuidando dos dois mais novos para ir de ônibus até o local. “É uma tentativa de saber algo dele. Como ele chegou há pouco tempo, pode ser que não tenha boletim. Aí vou ter que voltar amanhã 5 horas da tarde para saber.”

Do outro lado da calçada, em frente ao hospital que fica em São Miguel Paulista, um bairro pobre da capital paulista, estão Ana Claudia e Paula, que também esperam para ter notícias dos maridos, também internados na UTI do Tide Setúbal. Danilo, marido de Ana Claudia, está lá desde o dia 30 de março. Há pelo menos um mês ela vai diariamente ao local. “Às vezes você vem aí três dias seguidos e recebe só notícias boas. Aí no quarto deu uma piorada, depois melhora de novo. Olha, vou falar, é muito difícil, tem que ter muita fé”, diz ela.

Familiares de pacientes se aglomeram em frente ao Tide Setúbal, à espera de informação na tarde fria da quinta-feira, 14 de maio, em São Paulo. A maioria usa máscaras e aguarda que o funcionário do hospital chame em voz alta o nome do paciente.
Corredor do Hospital Municipal Tide Setúbal, uma referência na zona leste, a região mais populosa de São Paulo. A unidade ampliou de 7 para 41 os leitos de terapia intensiva disponíveis para combater a pandemia do coronavírus.

Outra ala de tratamento de pacientes críticos do novo coronavírus no Tide Setúbal. Dos cerca de 1.100 funcionários da unidade, um total de 26 estava afastado das funções até a sexta-feira, dia 15, por causa do novo coronavírus. Desde o começo do combate da pandemia, três funcionários da unidade já morreram (um enfermeiro e dois médicos)

O Sindicato do Servidores Municipais de São Paulo (Sinsep) fez campanhas públicas cobrando EPIs (Equipamento de Proteção Individual) para todos os profissionais do Tide Setúbal no fim de março e começo de abril. Agora, o Sindsep diz que o fornecimento melhorou, mas cobra que eles sejam de qualidade. “Pode melhorar mais. Exigimos a realização de testes em todos os profissionais, na equipe de segurança, na equipe de limpeza. Todos precisam estar protegidos”, diz Charles Monteiro de Jesus, diretor do Sindsep.

O diretor-técnico do Hospital Tide Setúbal, Carlos Alberto Velucci, em uma área reservada para o tratamento de covid-19. Velucci diz que há EPIs suficientes para dois meses e que segue a regra da Anvisa para a utilização do material. Quanto à falta de informação por telefone a parentes de pacientes, ele diz que alguns dos familiares foram vítimas de golpes e que não há dinheiro para montar uma operação de comunicação. “Nós somos um hospital pobre. Não temos orçamento para uma equipe de telemarketing como nos hospitais de campanha”, afirma.

Principal ala de UTIs do Hospital Tide Setúbal, destinada aos pacientes mais graves. “É tudo inusitado. Já fui secretário de Saúde de São Paulo entre 1999 e 2000 e nunca vi nada parecido”, diz o diretor técnico Carlos Alberto Velucci. “Paciente chega andando, bem, e daqui a pouco ele morre… Aí chega aquele que está morrendo e no  outro dia ele sai andando”, se espanta.

No Hospital Tide Setúbal seguem funcionando outros atendimentos, como a maternidade, num fluxo separado ao dos pacientes de covid-19. Na imagem, profissionais levam uma gestante para a sala de parto.

Robô munido de câmera que passará de leito em leito para facilitar a comunicação entre os pacientes e parentes no Hospital Tide Setúbal. Aparelho foi doação de um banco. Unidade da zona leste tenta driblar a falta de recursos com doações de empresas privadas. Além do robô, hospital recebeu como doação três geradores de energia, para prevenir que quedas na rede elétrica afetem os pacientes, material de proteção e até guloseimas e chocolate. “Passo a mão no telefone”, diz o diretor técnico Carlos Velucci, que comanda o hospital há dois anos.

Ala para pacientes de covid-19 no Tide Setúbal. Desde o começo da pandemia até o dia 8 de maio, 536 pacientes lutando contra doença já passaram pela unidade, cujo raio de influência alcança cerca de 400.000 pessoas na capital. 276 obtiveram alta.

Câmara com raio ultravioleta para descontaminação dos profissionais instalada no Hospital Municipal Tide Setúbal. Ao final do expediente, o protocolo é que profissionais sigam as instruções e fiquem por 20 segundos expostos ao raio ultravioleta, capaz de matar o vírus. A tecnologia experimental está sendo usada em vários formatos ao redor do mundo. “O filho da diretora financeira que estuda robótica nos falou desta solução. As madeiras já tínhamos e os equipamentos de luz custaram 1.400 reais”, diz o diretor técnico do hospital.

Site: El Pais