No livro O Capa-Branca, o jornalista Daniel Navarro Sonim reuniu, a partir de manuscritos e entrevistas, as experiências de vida de Walter Farias, ex-funcionário que se transformou em paciente, na década de 1970, do Complexo Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo. Números oficiais dão conta que naquela época o local chegou a abrigar quase o dobro das 9 mil pessoas que tinha condição de comportar.

Aprovado no concurso público para atendente de enfermagem, Walter é designado para cuidar de pacientes acamados ou que perambulam, alheios à realidade, pelos corredores das clínicas do Hospital Psiquiátrico. A vida do protagonista de O Capa-Branca começa a tomar outro rumo depois da repentina transferência para o Manicômio Judiciário, onde ele convive com pacientes que cometeram crimes, alguns deles violentos e com requintes de crueldade.

A rotina no manicômio abala sua sanidade e o obriga a abandonar sua capa branca, o jaleco que os funcionários vestiam para trabalhar. Dali em diante, a única alternativa é a internação. Ao se tornar mais um paciente do Juquery, passa a sentir na pele os horrores daquele lugar.

Na visão de Walter Farias, que hoje está aposentado, as pessoas acreditam que ele tenha se tornado esquisito depois da convivência por sete anos com os doentes. “Eu aposto que muita gente nem imagina quais são os verdadeiros limites da loucura. Mas será que a mente humana possui limites?”, desafia Walter.

Para o autor, Daniel Navarro Sonim, “O livro é um recorte, a partir das memórias do Walter, da história da psiquiatria, da enfermagem, da psicologia e, claro, da História do Brasil. O resgate dessas memórias serve para refletirmos sobre um período em que as instituições psiquiátricas no país podiam ser consideradas depósitos de seres humanos indesejados. Ao invés de promover a tão propagada ‘cura’, os tratamentos, infelizmente, traziam, infelizmente, apenas dor e sofrimento. A partir dos equívocos do passado, que devem ser levados a público, é possível construir um presente e um futuro mais humanos. Uma das mensagens que desejamos transmitir com o livro ou nas palestras que apresentamos pelo Brasil e até no exterior é exatamente essa. Não desejamos mais ver o presente repetir o passado”.

Seja por prazer, seja para estudar ou para se informar, a prática da leitura aprimora o vocabulário e dinamiza o raciocínio e a interpretação. Infelizmente, com o avanço das tecnologias do mundo moderno, cada vez menos as pessoas interessam-se pela leitura. “Publicar livros no Brasil não é uma tarefa fácil. O mercado editorial está em crise, a meu ver, desde sempre, mas não cabe aqui discutir isso. O tema é extremamente complexo. Colocamos um ponto final na história em setembro de 2013 e só conseguimos lançar o livro em novembro de 2014 depois de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo que garantiu os recursos necessários para a publicação. Para escrevê-lo, um dos maiores desafios foi organizar as memórias do Walter de uma maneira que a cronologia fizesse sentido. Eu não tive acesso ao prontuário dele como paciente que se perdeu no incêndio que destruiu os arquivos do prédio da administração do Hospital Central do Juquery em 2005. Além disso, tanto os manuscritos quanto os depoimentos do Walter vinham em um fluxo que não respeitava uma ordem cronológica. Acredito que, por serem memórias muito duras, ele não conseguia escrevê-las ou verbalizá-las sem trazer à tona os traumas e sofrimentos que passou como funcionário e paciente de uma das maiores instituições psiquiátricas do país.”, finaliza Daniel.

Serviço:

O Capa-Branca – de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos

do Brasil

Onde comprar: Editora Terceiro Nome (www.terceironome.com.br)

Preço: R$ 40,00

Por: Eduardo Micheletto