A Favela Jardim Maravilha, em Cidade Tiradentes, esconde uma história de amor, abandono e esperança de uma mãe (Elizabete Silva) que sonha reencontrar a filha (Raíssa Caroline)  que ficou com o pai em Recife, a mais de 20 anos

Dentro do maior Complexo Habitacional da América Latina, existem bairros informais, construídos com as mãos de centenas de moradores. Dentre esses locais encontra-se a Favela Jardim Maravilha, uma das maiores da Cidade Tiradentes. A comunidade se inicia na Avenida Naylor de Oliveira (perto do terminal de ônibus) e termina no bairro Barro Branco. Segundo afirmam os moradores, a favela já tem mais de 20 anos de existência.

O Jornal Acontece Cidade Tiradentes esteve no Jardim Maravilha  para contar a história emocionante dessa guerreira. Elisabete da Silva é uma das milhares de moradoras, que vieram para a favela, devido ao déficit de moradia da cidade de São Paulo. Oriunda do estado de Pernambuco, Bete, como é conhecida, inicialmente foi morar em um cortiço no bairro do Bresser. Infelizmente aquele casebre foi desapropriado, mas para amenizar a situação, o dono do imóvel ofereceu 6 mil reais para cada morador, o que a ajudou a comprar o seu barraco na Favela Maravilha.

 Elisabete, a criança esquecida

Sua história começou diferente de tantas outras. Os únicos vínculos familiares foram criados no orfanato, na região do Engenho do Meio, Recife, Estado de Pernambuco. Segundo afirma, nunca teve notícias de nenhum membro da família. Relata que muitas vezes se sentiu solitária, como uma ave que nasceu sem um ninho, solta no mundo, ao sabor do vento.

Lembra-se apenas, que com doze anos de idade aceitou o convite de uma amiga da escola, que sem comunicar à mãe, convidou Elisabete para morar na sua casa. A amiguinha morria de pena de vê-la voltar todos os dias para o orfanato, triste  e desanimada. Relembra: “Um dia, ela disse, Bete: você quer morar na minha casa? E eu, sem pensar duas vezes, aceitei, sem perguntar se a mãe dela iria gostar da idéia. No entanto, depois de dois dias na casa, a mãe começou a questionar a minha presença.”

“Filha, a mãe da sua amiga não vai ficar preocupada com ela?”

“Foi então que a minha amiga revelou a verdade. Depois do susto, a mãe dela até pensou em ficar comigo, mas depois, orientada sobre os riscos, que iria correr, devido eu ter fugido, logo desistiu. Quando ela estava me levando de volta para o orfanato, eu implorei para ela me deixar na rodoviária da cidade. Disse que iria saber me virar e que logo daria um jeito na situação”.

“Conclusão: fiquei morando na rodoviária por quase duas semanas. Até ser convidada por ele, que se tornaria o pai da minha filha, que ficou perdida no meu coração de mãe. Sem ter para onde correr, aceitei morar na casa do homem, que tinha acabado de conhecer, 20 anos mais velho do que eu.”.

Nesse momento da narrativa, Elisabete começa a chorar, lembrando dos abusos físicos e psicológicos que sofreu. Quando resolveu trabalhar como empregada doméstica, já estava em estado deplorável emocional- e psicologicamente. Segundo ela, quando teve a filha, a patroa não quis mais mantê-la na casa.

Com o pouco dinheiro que tinha, alugou uma casa e foi morar sozinha com a filha recém nascida. Porém as dificuldades financeiras a fizeram pedir ajuda para o “ex-marido”. E esse foi o primeiro passo para perder definitivamente a sua filha. Na casa do pai, relata Elisabete:

“Ela tinha comida, bebida e conforto, enquanto eu em muitas vezes, não poderia oferecer nem o básico.” Na época o pai da Raíssa morava  no bairro Caxangá, às margens do Rio Capibaribe, em Recife, capital do Pernambuco.

Com o tempo, ela passou a não querer ficar mais na minha casa. Foi muito difícil para mim, perceber que a cada dia, eu perdia mais a minha filha. Eu não tinha estrutura básica para criá-la, eu estava sozinha no mundo. Relata emocionada.

A viagem difícil para São Paulo sem a filha

Elisabete recebeu o convite para ir a São Paulo com o homem, com o qual estava se relacionando.“Implorei de todas as formas para minha filha vir comigo, mas ela estava decida a ficar com o pai. Parti com o coração sangrando, não sabia, mas nunca mais iria ver a minha filha.”

Hoje Elisabete tem seis filhos e é orgulhosa do lugar onde mora. Diz que todos os seus filhos estão na escola, recentemente conseguiu um emprego de cozinheira na creche Bem Querer.

“Sinto que a minha vida está começando a entrar no eixo, mas eu só serei uma mulher completa, quando revir a minha filha Raissa Caroline.

Por favor, me ajudem! ”, finaliza emocionada

Claudia Canto é Jornalista Literária, Palestrante e Escritora