Lúcio Ribeiro (Popload Gig e Poplad Festival), Eric de Haas (shows de heavy metal) e Marco Antônio Tobal Junior (Espaço das Américas e Villa Country) citaram os possíveis impactos negativos:

  • O Brasil pode sair da rota dos principais artistas estrangeiros no 2º semestre, porque eles vão priorizar os países não visitados da Europa, Ásia e América do Norte;
  • O calendário será dominado por shows que deveriam ter acontecido no período do isolamento, fazendo com que produtores desistam de novos shows;
  • A volta será mais lenta do que você pensa, com público aos poucos perdendo o medo de ir aos eventos cheios de gente;
  • Festivais e casas de médio e pequeno porte podem quebrar se os fãs decidirem pedir reembolso de ingressos além da conta, mesmo sem saber se poderão ir na data remarcada.
Fãs se emocionam com show da banda Death Cab for Cutie no Popload Festival — Foto: Marcelo Brandt/G1

Retomada vai ser devagar

Lúcio Ribeiro, que além de produzir eventos também cobre festivais e shows como jornalista, garante que nunca viu outro caso assim:

“É um negócio geral, internacional. Nunca pensei que pudesse ocorrer algo do tipo. Eu já vi coisas como, por exemplo, no 11 de setembro, Nova York ficar parada. Em um primeiro momento, os Estados Unidos inteiro, mas depois Nova York, aí foi a retomada devagar, mas até aí perto de tudo que está acontecendo é fichinha.”

É fichinha e essa pausa no calendário de shows em todo mundo deve prejudicar muito o segundo semestre de shows por aqui. A tendência é que o calendário de atrações gringas seja um dos piores em muito tempo. Mas por quê?

“Porque eles vão dar prioridade lá fora, como sempre deram, né? Primeiro o mercado deles lá, americano, inglês, e depois Europa, Ásia. Pode demorar pra uma banda internacional vir pra cá em um festival de médio porte pra baixo. Vão priorizar um tempo perdido com outros mercados”, explica Lúcio.

Público curte show do Ego Kill Talent — Foto: Alexandre Durão/G1

O produtor que já trouxe nomes como Blondie, PJ Harvey, Wilco, Libertines, Iggy Pop, XX, Tame Impala e Lorde ao Brasil também respondeu uma questão que parece óbvia. Mas que vale uma explicação. Falando da música como um negócio, cancelamento é bem diferente de adiamento, né?

“Sim, obviamente adiado é diferente de cancelado”, diz Lúcio. “Em shows que já estavam em curso, vendendo ingressos, casas reservadas, planejamento feito, pra você cancelar isso é um custo grande, que quebra clubs, pode quebrar festivais. Se você não tem uma estrutura, um colchão um pouco mais firme pra aguentar turbulências, pode dar bem ruim.”

Se puder, não peça reembolso…

Lúcio também deixa clara a importância de o fã não pedir o reembolso, caso possível: “Existe um movimento muito saudável que meio que começou na Bélgica e se espalhou pelo mundo, inclusive pelo Brasil, que é pras pessoas não pedirem a devolução do dinheiro do ingresso.”

Ele diz que as casas de shows e os festivais de médio e pequeno porte vão sentir muito os efeitos da crise. “Se você não tem uma estrutura muito gigante, um fluxo de caixa, enfim, não está muito preparado e faz um festival pra pagar o anterior… Isso é um sinal de que você pode quebrar.”

“A galera acha que todo mundo que faz shows, os produtores só querem dinheiro, as casas só querem cobrar caro a cerveja, tudo, mas tem um custo muito alto e é sempre muito feito no fio da navalha. Se alguma coisa der errado, ela dá muito errado”, pondera Lúcio.

Público do Lollapalooza — Foto: Fabio Tito/G1

A cena de rock pesado também vai ser prejudicada pela onda de cancelamentos e adiamentos, necessários após a pandemia da Covid-19.

Essa é a opinião de Eric de Haas, um holandês que começou como fotógrafo e editor de revistas de rock, mas hoje é um dos principais produtores de shows de heavy metal no Brasil.

“Essa é situação mais difícil que eu já vivenciei como produtor. Por exemplo, a primeira turnê agora do Sonata Arctic tem 20 datas na América Latina inteira”, explica Eric. Os shows que seriam em abril foram remarcados para novembro.

Além do prejuízo com a remarcação, o produtor também garante que deve sofrer também nos próximos meses. E ele tem uma péssima notícia para fãs de metal:

“Eu estava já negociando com outras bandas, só que com a enxurrada de shows que vai ser empurrada para o segundo semestre, eu parei negociações que eu estava planejando.”

Keane toca no Espaço das Américas em São Paulo — Foto: Stephan Solon / Move Concerts

Quem também sabe bem dos prejuízos de agora do mercado de shows é Marco Antônio Tobal Junior, diretor do grupo São Paulo Eventos, que comanda Espaço das Américas e Villa Country.

São duas casas com público máximo de 8 mil pessoas, em São Paulo. O Espaço das Américas tem shows de todos os estilos, e o Villa Country é voltado para o sertanejo.

“O prejuízo que traz pra todo mercado será enorme e até o momento incalculável”, diz Marco Antônio. “Não temos ideia do período de interrupção das atividades. O retorno será lento e gradativo. Não acredito que o mercado vai retornar do ponto que ele parou.”

Até agora foram desmarcados 20 shows do Espaço das Américas. Em cada evento, trabalham aproximadamente 500 pessoas.

“A rotina de remarcação é bastante trabalhosa. Vai ser um desafio pros artistas e pras casas sintetizar um ano de trabalho em um período de praticamente seis meses.”