Faleceu neste sábado, (14/12), vitima de um câncer, contra o qual ela vinha lutando a muito tempo, mas infelizmente perdeu a batalha .
A Dra, Sônia criou a ONGCasa de Isabel para garantir assistência jurídica e terapia para mulheres pobres, cansadas de apanhar de homens violentos. Sônia Regina Maurelli era do tipo que se metia em briga de marido e mulher. Tanto se mete que criou uma casa para ajudar vítimas da violência doméstica num dos bairros mais pobres de São Paulo.


O nome da Casa de Isabel vem da Bíblia. “Isabel acolheu Maria, a mãe de Jesus, nos primeiros meses de gestação”, diz Sônia. Ela e uma equipe de profissionais acolhem 1.500 mulheres por mês que pedem ajuda não por estar grávidas, mas por serem vítimas de violência. São mulheres comuns que vestem calças, andam de ônibus e trabalham, pintam as unhas e os cabelos, dançam forró e pagode. Votam e pagam impostos. Mas, entre quatro paredes, são espancadas, mutiladas e violentadas.
Quando elas batem na porta da Casa de Isabel, têm cicatrizes no corpo – e também na alma. A ONG fundada pela Dra. Sônia fica no bairro do Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, um dos bairros mais pobres da cidade. Segundo o IBGE, o rendimento médio de um chefe de família nessa área é de R$ 524,91. A média, na capital, é quase o triplo desse valor. Os homicídios são a terceira causa de morte. A região, que abriga 380 mil pessoas, segundo último senso, tem apenas uma biblioteca e um centro cultural.


Dizia a Dra, Sônia que a ONG não era um abrigo. Ela dá assistência jurídica e acompanhamento psicológico para que as mulheres consigam romper com o ciclo de violência. No total, são 3 mil atendimentos por mês, já que cada uma passa por diferentes procedimentos. “Os maridos bebem no fim de semana. Na segunda-feira, a Casa amanhece lotada”, afirma Sônia. “Já houve casos em que elas chamaram a polícia e o oficial se recusou a levar o agressor para a delegacia.
Também reclamava do atendimento na Delegacia da Mulher. Segundo ela, algumas policiais as tratam com rispidez. “Não tem dinheiro que pague o que eu faço. Cada um nasce com um propósito, uma vocação. O meu é cuidar das pessoas. Faço por paixão e por convicção. E me sinto amada”
A Casa de Isabel tornou-se referência no atendimento por violência doméstica: as estatísticas revelam que, no Brasil, uma mulher é espancada a cada 15 segundos. Hoje, a ONG mantém convênios e parcerias com órgãos públicos. Mas, no início, a Casa de Isabel era apenas uma mulher. “Comecei a atender as pessoas na minha casa”, dizia Sônia. “Quando havia casos mais sérios, eu usava o escritório de advogados amigos nos períodos em que estavam em audiência ou em horário de almoço.” Em 2001, Sônia conseguiu reunir 12 sócias e 13 voluntárias para montar a Casa de Isabel. Advogadas, psicólogas e assistentes sociais abraçaram a causa. Vizinhas doavam o almoço e faziam mutirões de faxina. “Vivemos num bairro muito perigoso e nunca sumiu nada da ONG. A comunidade nos quer aqui”, dizia a Sônia.


A Dra. Sônia trabalhava todos os dias da semana sem receber um centavo da ONG.. Para o seu sustento, ela usava os fins de semana para fazer consultorias em projetos do terceiro setor. Ela vive com as três filhas num sobrado simples. “Tenho poucos momentos de lazer. O tempo que tenho é para meditação, para colocar em ordem minhas idéias. Adoro tomar sorvete com minha filha na praça. Ver o verde, sentir o vento”, afirmou Sônia em uma reportagem de uma reportagem de uma revista de grande circulação.
Na década de 80 a Sônia integrou-se ao movimento feminista. Militava no sindicato dos motoristas de ônibus. “As mulheres condutoras sofriam todo tipo de violência”, dizia. Passou a organizar seminários para discutir o assunto. Depois da faculdade de Direito, se especializou no tema. Pulou da biblioteca para a pesquisa de campo. Peregrinou pelo Carandiru, então a maior penitenciária da América Latina, pela Cracolândia, região do centro de São Paulo onde vive um grande número de crianças viciadas em drogas, e chegou à Rua Augusta, um dos pontos de prostituição na capital. O que aprendeu usou como alicerce para implantar a Casa de Isabel. “Eu me sinto feliz, realizada como mulher, profissional e intelectualmente”, dizia a todos que a questionava.
“Cada um nasce com um propósito, uma vocação. O meu é cuidar das pessoas. Faço por paixão e por convicção. E me sinto amada”, dizia a Sônia.

Sepultamento: Cemitério da Saudade.
Endereço: Av. Pires do Rio, 1441, São Miguel Paulista.
Horários: 08:00 (início do velório), 15:00 (sepultamento).


Esta é uma singela homenagem dos jornais Folha do Itaim & Curuçá, Jornal Acontece Agora, página Itaim Mil Grau e portal de notícias AconteceAgora online.