Entre a população que teve a morte relacionada ao coronavírus, percentuais indicam 44% de mortes de brancos, 38,4% de pardos e 8,2% de pretos.

Enterro no Cemitério da Vila Formosa, em SP, em meio à pandemia do coronavírus — Foto: Antonio Molina/Estadão Conteúdo

O registro de mortes por causas naturais entre aqueles declarados pretos e pardos cresceu mais de 30% durante os meses de pandemia, se comparado ao mesmo período do ano anterior. O índice é superior ao registrado entre todas as raças. Os dados são do Portal da Transparência, divulgados nesta segunda-feira (13), com base em registros de óbitos feitos nos cartórios do país.

Os números se referem ao período de 16 de março a 30 de junho de 2020, e apontam que houve aumento de 13% no total geral de mortes por causas naturais.

Entre elas, houve:

  • 31,4% mais mortes de pardos
  • 31,1% mais mortes de pretos
  • 15,3% mais mortes de amarelos
  • 13,2% mais mortes de indígenas
  • 9,3% mais mortes de brancos

As informações têm como base as Declarações de Óbitos (DOs) emitidas pelos médicos, que são a base da certidão de óbito.

Em números absolutos:

  • 390.078 pessoas morreram de causas naturais no período
  • 181.591 são brancas
  • 121.768 são pardas
  • 25.782 são pretas
  • 3.948 são amarelas
  • 701 são indígenas

De acordo com os dados, 56.288 mortes por causas naturais não continham a informação sobre raça e cor.

Mortes por coronavírus

Os dados apontam que, nas mortes que tiveram causa relacionada à infecção por coronavírus, a proporção entre as raças da população é a seguinte:

  • 44,4% das mortes são de pessoas brancas
  • 38,4% das mortes são de pessoas pardas
  • 8,2% das mortes são de pessoas pretas
  • 1,5% das mortes são de pessoas amarelas
  • 0,24% das mortes são de pessoas indígenas
  • 7,2% das mortes são de pessoas com raça/cor ignorada

Mortes por doenças respiratórias e cardíacas

As mortes que tiveram as causas registradas como doenças respiratórias cresceram 34,5% no período. Entre as registradas como doenças cardíacas, o aumento foi de 0,7%.

No recorte por raça, as doenças registradas como Insuficiência Respiratória, Pneumonia, Septicemia e Síndrome Respiratória Grave (SRAG) mataram:

  • 72,8% mais pardos
  • 70,2% mais pretos
  • 24,5% mais brancos
  • 45,5% mais indígenas
  • 40,4% mais amarelos

Já as mortes provocadas por AVC, Infarto, e demais doenças cardiológicas (que causam morte súbita, parada cardiorrespiratória e choque cardiogênico), indicam aumento por raça:

  • 13,7% mais pretos
  • 8,4% mais pardos
  • 2,2% mais indígenas

As populações identificadas como branca e amarela registraram queda no período. Para brancos, houve redução de 0,5%; para amarelos, queda de 0,3%.

Maior risco de morte

Um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, indica que pretos e pardos morreram por Covid-19 mais do que brancos no Brasil.

O grupo analisou a variação da taxa de letalidade da doença no Brasil de acordo com variáveis demográficas e socioeconômicas da população. Cerca de 30 mil casos de notificações de Covid-19 até 18 de maio disponibilizados pelo Ministério da Saúde foram levados em conta.

“O que a pandemia tem evidenciado é o que vários estudos já mostravam em relação ao maior prejuízo da população pobre e negra ao acesso da saúde. A Covid-19 encontra um terreno favorável porque essas pessoas estão em um cenário de desigualdade de saúde e de precarização da vida”, afirma Emanuelle Góes, doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz sobre desigualdades raciais e acesso a serviços de saúde.

Entre os motivos, os pesquisadores apontam:

  • acesso a serviços de saúde
  • condições de vida da população mais pobre
  • falta de acesso ao saneamento básico
  • fome ou necessidade de trabalhar para ganhar o dinheiro da comida do dia