Uma peça de teatro diferente quer despertar uma nova forma de ver a cidade de São Paulo.

Em São Paulo, uma peça de teatro diferente quer despertar um novo olhar para a cidade em que moramos. Os repórteres Thiago Capelle e Fabio Turci embarcaram nessa viagem.

passageiros da CPTM recebem fone de ouvido para acompanhar a história

O trem já vai partir. Mas o chamado não é para apertar o passo. É para olhar sem pressa. O invisível é o que passa pela janela todo dia, mas que a gente nem sempre enxerga. A história, contada nos fones de ouvido, é uma voz da consciência que abre os olhos.

O que se vê lá fora ganha novos sentidos. Nessa história, narrada sobre o mundo real, tem gente que vive em caixas de fósforos empilhadas. No vagão, o público do espetáculo se mistura aos passageiros de todo dia.

A Deise, que sempre pega esse trem, recebeu um fone para participar. “Ou venho dormindo ou venho pensando nos meus problemas, o que fazer em casa à noite”, conta a auxiliar de limpeza Deise Magnesi. Hoje, foi como chegar a outro lugar. “Gostei muito, sai do nosso cotidiano”, diz.

O espetáculo chega à rua. O Jardim Romano, no extremo leste de São Paulo, a 30 km do Centro. Aa maior parte de São Paulo só conhece o bairro de ouvir falar. O Jardim Romano e seus vizinhos vivem alagados na época das chuvas. São comunidades que se ergueram perto da várzea do Rio Tietê.

O Show chaga no Jardim Romano

A chegada do espetáculo tira do lugar até quem mora lá. Jhonverton vai atrás para ver que trem é esse. A trupe percorre as ruas do bairro, leva o público para pisar no chão que tantas vezes é fluido.

Nesse pedaço de Brasil esquecido, a arte que brota trata do abandono, da violência e, claro, das enchentes.

“É uma coisa fantástica, né? Você está em uma São Paulo dentro de outra São Paulo. Eu acho interessante a gente conhecer um Brasil ou os ‘Brasis’ que nós não conhecemos quando estamos nas nossas virtualidades da vida”, diz o professor Edson do nascimento.

A arte vai tirando o povo de casa. Os moradores vão se juntando aos artistas. Esse lugar esquecido não está acostumado a receber visita, não está acostumado a ficar cheio do que não seja água.

“Que a gente se reconheça nessa experiência humana que é a cidade, que a gente possa estar juntos habitando esse lugar e nós olhando uns pros outros independente da estratificação social que está posta nessa cidade”, diz João batista Junior, diretor do espetáculo.

O espetáculo termina na beira do rio. Foi um olhar diferente para o morador que acompanhou até o fim. “Lindo, né? Incrível! Nunca tinha visto, primeira vez. Lindo!”, vibra Jhonverton Santos, desempregado.

O show encerra, com a contemplação, as margens do rio Tiete no Jardim Romano

E, também, para o cidadão de uma São Paulo que fica muito distante daqui. “A maior lição é descobrir, tirar o véu de não mais encarar isso como ‘ah, só acontece do lado de lá, né?’. Está acontecendo, é real, está perto e eu também sou responsável”, diz Graziela Sarmento, profissional de educação física.