Como a postura agressiva do ex-presidente afeta o cenário político e eleitoral

Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff se cumprimentam no congresso do Partido dos Trabalhadores (PT) — Foto: Beatriz Borges/G1

Fora da cadeia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou o tom belicoso em vez do conciliador. No fim de semana, voltou a repetir no Congresso do PT os ataques à Operação Lava Jato, ao impeachment de Dilma Rousseff, às reformas econômicas e às privatizações. Definiu seu campo político como “o oposto de Bolsonaro” e afirmou que “não dá para ficar no meio do caminho”.

Lula frustrou as vozes que esperavam dele alguma moderação capaz de arrefecer o cenário político polarizado, aqueles que exigiam do PT o reconhecimento dos próprios erros – tanto na condução desastrosa da economia nos anos DIlma, quanto na repetição de práticas políticas que resultaram nos maiores escândalos de corrupção da história brasileira.

Duas questões emergem dessa postura agressiva. Primeira: qual seu sentido para o próprio Lula, para o PT e para a esquerda brasileira nas eleições de 2020 e 2022? Segunda: qual seu efeito nos demais atores da cena política, tanto no bolsonarismo quanto naqueles que defendem uma terceira alternativa à polarização?

A resposta à primeira questão é mais fácil. Lula foi condenado duas vezes na Justiça e enfrenta outros sete processos. Por mais que pose de vítima de conspirações imaginárias, por mais que sua defesa tente apontar desvios jurídicos, por mais que Sérgio Moro possa ter sido parcial ao condená-lo, as provas acumuladas contra ele vêm sendo referendadas nas várias instâncias da Justiça.

Nenhum teatro político mudará a realidade jurídica que, pela Lei da Ficha Limpa, torna improvável a volta de Lula às urnas. E nenhuma sentença judicial mudará a realidade política que faz dele uma força eleitoral incontornável. Dessa tensão deriva o discurso belicoso de Lula. É um passo na estratégia para levar não necessariamente ele próprio, mas o PT de volta ao poder.

Do mesmo modo que o partido insistiu até o último momento na candidatura Lula à Presidência em 2018 (registrou o nome de Fernando Haddad no limite do prazo), novamente Lula serve de veículo para evitar o surgimento de qualquer desafiante à hegemonia do PT na oposição. Combalido pelos escândalos de corrupção e pelas derrotas de 2016 e 2018, o partido deposita seu cacife na maior liderança e no discurso conspiratório da vitimização.

Para Lula e o PT, o governo Jair Bolsonaro oferece o adversário ideal em qualquer segundo turno. Nada mais confortável do que apresentar-se como única alternativa àqueles que fazem apologia da ditadura, flertam com o neofascismo e implantam uma agenda econômica antagônica à defendida pelo PT. Para Bolsonaro, Lula também é o inimigo ideal. Politicamente, a polarização faz sentido eleitoral para ambos.

Para quem defende uma alternativa ao petismo e ao bolsonarismo, o cenário é mais desafiador. Aqueles que se identificam como “nem de esquerda, nem de direita” e se proclamam “de centro” ainda não formularam uma resposta convincente aos dois polos. Nomes como o governador paulista, João Doria, ou o apresentador de TV Luciano Huck têm hoje um programa vago o bastante para significar qualquer coisa.

De um lado, procuram colorir com matizes sociais a agenda econômica liberal necessária. De outro, repudiam os disparates na agenda cultural, que emanam das alas ideológicas do governo Bolsonaro. Mas nada disso representa um discurso coeso capaz de ser compreendido com facilidade pelo cidadão médio. Por enquanto, o “centro” se define apenas pela negativa dos dois polos. Ninguém sabe o que é de verdade.

A razão para isso, como expliquei na minha série sobre polarização publicada em 2015, é que o tal “centro” não existe. É um mito, um artefato ficcional. Ou melhor, não significa o que se imagina. Não representa um “ponto médio” entre extremos. Alguém de “centro” não é necessariamente um “moderado”.

Nas várias questões que polarizam a sociedade – privatizações, reformas, aborto, porte de armas, casamento gay, drogas, etc. –, é comum encontrar quem tenha posições variadas, contra ou a favor de cada uma. Mas não moderadas. Alguém que se diz “de centro” costuma ter posições extremas sobre vários temas, embora elas não se encaixem uniformemente nas cartilhas da esquerda ou da direita.

O espectro tradicional que vai da esquerda à direita não dá conta de descrever as múltiplas dimensões que dividem a sociedade. Qual dessas dimensões será decisiva nas próximas eleições? Eis o desafio diante de todos os que disputam o poder. Quem tem falado em “centro” no Brasil costuma ter em mente a agenda econômica liberal.

É contra eles que Lula se volta quando tenta associar o liberalismo ao fascismo ou à extrema-direita – um absurdo do ponto de vista histórico, econômico ou político. O objetivo é transformar a rejeição ao governo Bolsonaro em rejeição às reformas. Mas trazer a disputa para o campo da economia pode ser uma estratégia de risco. Tanto para o PT quanto para aqueles que se dizem “de centro”.

O PT tem na economia um de seus pontos frágeis. Depois do pragmatismo do primeiro mandato de Lula, não se deve esquecer que Dilma promoveu o descontrole nas contas públicas e foi deposta em virtude de crimes fiscais. Os liberais, em contrapartida, jamais convenceram o cidadão médio dos benefícios de privatizações ou reformas. Ambos esquecem que, aqui como no mundo todo, as eleições têm sido decididas por guerras culturais, com nítido avanço conservador. Se depender de Bolsonaro, será assim novamente em 2020 e 2022.