Acender o fogão de casa pode custar 46% a mais em Pinheiros do que na Vila Curuçá se o cliente usar botijões de gás. Um recipiente de 13 kg da Ultragaz custa R$ 94,99 no bairro da zona oeste, e R$ 61,99, na zona leste. 

Os dados foram obtidos por um levantamento da Agência Mural, que consultou o preço do gás em todos os 96 distritos de São Paulo. A comparação foi feita com o mesmo produto (botijão de 13 kg da Ultragaz), e os preços foram obtidos por aplicativo e por telefone, entre os dias 3 e 5 de julho. A empresa foi escolhida por ser geralmente a de valor mais caro. 

O botijão custa mais nos bairros de Pinheiros, Campo Belo, Santo Amaro, Consolação e República: R$ 94,99. De modo geral, vai ficando mais barato conforme o comprador se afasta do centro. No Tatuapé e no Jabaquara, custa R$ 85. 

Os menores preços foram encontrados na zona leste: R$ 64,99 no Parque do Carmo, São Miguel e Vila Curuçá. Há também valores menores no Grajaú (R$ 68) e no Capão Redondo (R$ 73).

Embora seja exatamente o mesmo produto, o preço é definido por cada revendedor. Esses distribuidores dividem a cidade em áreas de abrangência, assim cada casa só pode pedir entrega de gás em um posto, e não em um distribuidor vizinho que cobre menos. No entanto, pode ir retirar pessoalmente. Nas periferias, o gás também é vendido informalmente em mercadinhos. 

“A logística é fundamental na composição dos custos que norteiam o preço do produto”, disse o Sindigás, associação dos revendedores, em nota. Outros fatores que compõe o preço são o gasto com aluguel e IPTU do depósito, o salário dos funcionários e o interesse de lucro de quem vende.

Embora custe menos em bairros das periferias, o preço do gás pesa mais no orçamento das famílias mais pobres, já que elas ganham salários menores.

“O gás de cozinha representa 23% do orçamento das famílias da classe E, com renda de R$ 976,58 ao mês”, explica Júlia Ximenes, assessora econômica da Fecomércio-SP. “Nas classes mais altas, o peso desse gasto é menor.” 

Comparações

Como o preço do gás varia ao longo das linhas de metrô:

Linha 1 – azul
Tucuruvi 82
Santana 79
Sé  89,9
V.Mariana  89,90
Jabaquara 84,90

Linha 2-verde
Vila Madalena (Perdizes) 90,99
Brigadeiro (Jd.Paulista) 89,90
Alto do Ipiranga 89,90
Sacomã 84
V.Prudente 89,90

Linha 3 – vermelha
Barra Funda 89,99
República 94,90
Brás 85
Tatuapé 89,9
Itaquera 70

Linha 4 – amarela
Luz (Bom Retiro) 89,90
Paulista (Consolação) 94,90
Pinheiros 94,99
Butantã 79,99
Morumbi 85

Linha 5 – lilás
Moema 84,9
Campo Belo 94,99
Santo Amaro 94,99
Campo Limpo 73
Capão Redondo 73

“O pessoal comenta muito que antes usava o microondas para economizar o gás, mas hoje já não dá, porque a energia tá cara”, comenta Josiane Santos, 44, assistente social que mora no Grajaú, na zona sul. 

Outras ações feitas para economizar são cozinhar uma grande quantidade de comida de uma vez e usar garrafas térmicas para não precisar ficar requentando o café. 

Também no Grajaú, Aline Maia, 19, costuma pegar os botijões vazios de uma amiga para aproveitar o que sobrou. “Quando o gás está perto de acabar sempre sobra um pouco. Ela tira para colocar um cheio e me dá o resto. Aí eu coloco no meu fogão”, conta ela, que é mãe de duas filhas e vive com cerca de R$ 470 por mês, enquanto espera a Justiça decidir sobre a pensão que o pai das crianças deveria pagar.

POLÍTICA DE ESTADO

Nos últimos anos, houve mudanças na forma como era controlado o valor do gás. Ximenes, da Fecomércio, aponta que no governo do PT [2003-2016], havia uma política de congelamento dos preços, a qual mantinha o preço ao consumidor, independente das mudanças econômicas. “A intenção era desonerar gastos essenciais das famílias, mas isso gerou prejuízos à Petrobras por diversos motivos, como as taxas portuárias”, diz.

“Hoje, com a mudança na política, depois do governo [do presidente Michel] Temer, quem paga a conta é o consumidor final, em reajustes trimestrais. Analisando o atual governo, parece que não haverá mudanças, já que as políticas econômicas caminham para o livre mercado, portanto, sem a intervenção do Estado”, conclui.

O gás de cozinha vendido no Brasil é produzido pela Petrobras e por outras empresas, que repassam o produto a distribuidoras como Copagaz, Liquigás e Ultragaz. As revendas são responsáveis por 43% do preço final do produto. Outros 16% são impostos. 

Há concorrência entre as marcas, mas as opções mais baratas tendem a durar menos, segundo a impressão de muitos consumidores. Há também diferença de preço se o pagamento é feito à vista, com cartão ou com vale-alimentação. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, vem prometendo baratear o custo do gás ao consumidor final, por meio de uma abertura do mercado de produção e distribuição a outras empresas. Essa mudança na regulação foi iniciada, mas ainda depende da negociação entre diversos órgãos federais e os Estados. 

“Essa maior competição em petróleo e gás e a aceleração do ritmo de extração desses recursos naturais vão acabar chegando no botijão de gás da família, diminuindo em 30%, 40%, até 50% o custo do gás lá no final da linha”, disse Guedes, no fim de junho, à Agência Brasil. 

Enquanto as novas regras não chegam, resta aos moradores seguir lidando com a alta de preços. Entre março e julho, o gás subiu R$ 5 no Alto de Pinheiros, e R$ 3 na Vila Curuçá.