Mulher, avó, catequista, formada em fisioterapia e filosofia, gosta de correr e rabiscar em um caderno que leva sempre consigo enquanto fala. Religiosa, Elza Paulina Souza tem 52 anos, está há 33 anos na corporação – entrou em 1986, quando a Guarda foi criada – e assume nesta sexta-feira (5) oficialmente como a primeira comandante mulher da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo.

Como comandante, ela pretende aprimorar a valorização dos profissionais, assim como melhor capacitá-los para as principais ações da GCM, que são o apoio às operações das secretarias municipais – entre elas a segurança da Cracolândia, área ocupada por usuários de drogas no Centro de São Paulo.

Elza diz que também deseja aumentar o trabalho em conjunto com a Polícia Militar em ações como a fiscalização de pancadões, e o projeto Maria da Penha, que acompanha o cumprimento de medidas judiciais protetivas a mulheres vítimas de violência doméstica.

“Eu gostaria que a guarda fosse reconhecida de fato pelo espaço que ocupa e pelo que faz, que não nos olhassem às vezes como se fôssemos um patinho feio, para que pudéssemos fazer um serviço com dignidade. Por exemplo: no território da Nova Luz (como passou a ser chamada a Cracolândia). O fluxo (de usuários de drogas) vira e a cada 8 horas precisa limpar lá. Às vezes dá confusão e a conta é a gente que sempre paga. Não estamos tirando nossa responsabilidade, mas é dentro de um grande processo. Se não tiver um GCM lá, ninguém passa pela região”, diz Elza.

Usuários da Cracolândia são cercados por PMs, GCMs e policiais civis durante operação na região em 2018 — Foto: Reprodução TV Globo
Foto: Usuários da cracolândia são cercados – (Imagem de Reprodução)

Política contra as drogas

“Eu respondo pela minha parte, mas todo mundo é responsável, já que não é um problema só de segurança. Ele sai de lá, atravessa a rua, vem aqui (na estação de Metrô da Luz, no Centro de São Paulo), rouba um celular e volta para lá para trocar por crack. Ele tem plena consciência dos seus atos, sabe o que está fazendo. Ele tem que ser responsabilizado pelos crimes que comete. Este é um posicionamento meu”, afirma a nova comandante.

Para Elza, é necessário “rasgar a venda” que cobre os olhos da sociedade. “Se a gente não rasga esta venda e olha o processo por inteiro, não vai sarar isso. Ele tem uma parcela de responsabilidade, ele sabe o que ele está fazendo”, acredita.

“Há um sentimento ambíguo da sociedade. É preciso que a sociedade decida o que ela quer. Qual a resposta que a sociedade quer. É uma discussão intensa, é um processo difícil, porque a responsabilidade não é só minha”, defende.

Primeira mulher no comando

Elza entrou na primeira turma da GCM paulistana, criada há 33 anos na gestão do prefeito Jânio Quadros, e lembra das dificuldades que teve, aos 19 anos, de vir sozinha de Marília, interior do estado, morar na capital para estudar.

Em São Paulo, trabalhou como empregada doméstica para se sustentar e viu na Guarda a chance de realizar seus sonhos.

“Cresci próximo a uma unidade do Exército, sempre via os militares de farda verde e dizia: ‘eu quero trabalhar lá’. Na época, me falavam que mulher não podia. Por que eu não posso? Quem disse que mulher não pode? Eu era meio rebelde. Eu queria trabalhar armada e fardada. Na minha cabeça, eu queria salvar o mundo”, relembra ela, que teve que cortar o cabelo bem curtinho quando ingressou na academia da GCM.

Agora, nomeada como comandante-geral da Guarda Municipal de São Paulo pelo prefeito Bruno Covas, ela sabe que não pode sozinha salvar o mundo. Mas acredita que, se cada um fizer a sua parte, as coisas podem mudar.

Memórias

Dentre as ocorrências mais importantes da sua vida, recorda de ter salvo uma jovem que tentou se suicidar, em 2018, em um viaduto no centro de São Paulo.

“Ela estava em pé em uma pilastra, ia e vinha. Uma hora ela sorriu para mim, e achei que ela iria voltar. Foi quando ela se jogou, e puxei ela pelo braço. O que ela me falou depois, quando estávamos no hospital, me marcou muito: ‘Você cumpriu sua missão, vai voltar para a sua casa. E eu, o que faço da minha vida agora?’”, relembra a comandante.

Também participou de um tiroteio durante um roubo a banco na Penha, na Zona Leste, há alguns anos. “Mas tiroteio é aquela coisa, você não sabe de onde a bala vem, é tiro para todo o lado, você só ouve os barulhos e tenta se defender”, lembra.

Movida à adrenalina – ela se diz “ligada no 220 ” – Elza afirma ter ainda “muitos sonhos”. Dentre eles, deseja se formar no curso de psicologia.

“A gente precisa de sonhos para viver, precisa acreditar em algo, querer algo. Nem que seja ir na [rua] 25 de Março comprar uma linha. Este é o problema desta juventude: eles precisam acreditar que podem fazer acontecer”, defende.

Também quer deixar um legado de valorização e aperfeiçoamento do profissional e aumentar o efetivo, que hoje tem cerca de 6.200 agentes.

“Temos muitos pedidos, nossa demanda é infinita. Toda hora tem alguém pedindo apoio da GCM para alguma coisa e queremos fazer tudo bem feito. Estamos estudando um novo concurso, para a contratação de mil novos agentes, e também como estruturar a aposentadoria da categoria, pois não temos uma aposentadoria especial”, diz a superintendente.

Fonte: As informações são do portal de notícias ‘G1’.