No fim de semana de 15 e 16 de dezembro, o Ursos Basquetebol conseguiu cinco medalhas, sendo duas de ouro, na Copa NCB, em Diadema, coroando um ano em que a agremiação esteve no posto mais alto do pódio outras duas vezes. Mas isso não significa que o fim de temporada tenha sido somente de comemorações.

Desde outubro, o projeto social que ensina basquete para jovens da periferia e de diferentes idades vive sob tensão.

Eles estão sem local para treinar porque a direção da Escola Presidente Epitácio Pessoa, no bairro de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, decidiu restrigir o uso da quadra só para alunos. Quem faz parte do projeto e não está matriculado pode utilizar o local aos fins de semana, dias em que os Ursos disputam torneios.

E o problema é que a maior parte dos jogadores que defendem as cinco categorias do projeto é formada por jogadores que não são alunos da escola.

“A divisão dos treinos era: às segundas, o sub-10 e o sub-13; às terças, o sub-15 e o sub-17 e, às quintas, o sub-20. Aos fins de semana, dia que a Escola propôs abrir a quadra, não dá para comportar todo mundo e quase sempre temos jogos”, disse Viviane Silveira, que ajuda o projeto e tem dois filhos no Ursos.

De acordo com ela, o projeto mobiliza cerca de 380 pessoas.

A perda da quadra gerou pedidos de pais, alunos e colaboradores. Foi debatida pela última vez em uma reunião em 19 de novembro. Sem acordo.

A reportagem entrou em contato com a direção da escola e a resposta veio em forma de nota oficial, enviada pela assessoria de imprensa da Diretoria Regional de Educação de São Miguel. De acordo com a DRE, “a cessão do espaço não foi encerrada pela direção”.

O técnico Alexandre Silva conversa com os meninos do Projeto Ursos Basquetebol Divulgação Ursos Basquetebol

“Dado o crescimento do projeto e a adesão de participantes de fora da escola, a direção, seguindo o Decreto n.º 36.832/97 [utilização de prédios escolares pela comunidade], propôs um atendimento diferenciado para que o projeto continuasse a atender todos os interessados”, prosseguiu.

“A proposta feita pela direção da unidade para reorganizar o Projeto Ursos Basquetebol foi de que durante a semana as atividades do projeto fossem dedicadas apenas aos alunos da unidade, no contraturno escolar e, nos finais de semana, abertas aos demais membros da comunidade, conforme diz a legislação”.

Apesar de na nota a Escola informar que continua “aberta para o diálogo”, os participantes do projeto reveleram dificuldade para tratar da situação.

Fabrício Russo em ação pelo Mogi das Cruzes Divulgação Antonio Penedo/Mogi Basquete

“[Em uma das conversas] A escola propôs que nós usássemos um parque que têm próximo da nossa casa, mas a via de acesso tem avenidas e tem um túnel. A gente se negou. Eles disseram que estamos exigindo demais”, disse Viviane.

Diante disso, colaboradores do projeto Ursos Basquetebol decidiram buscar outros meios de retomar o espaço desejado.

“Eu criei uma petição pública, espalhei nas redes sociais, no Facebook, no Instagram e no Twitter. Os atletas e as famílias aderiram e ajudaram na divulgação. Conseguimos mais de dez mil assinaturas”, disse Julia Soares, estudande de administração.

A petição foi protocolada há algumas semanas.

Troféus conquistados pelo Projeto Ursos Basquetebol desde 2007 Divulgação Ursos Basquetebol

Jogador do Corinthians

O Ursos Basquetebol nasceu em 27 de novembro de 1990 com pretensões mais modestas, mas cresceu. Soma mais de cem títulos e tem em sua história a formação de um jogador que acabou defendedo a camisa do Corinthians.

O nome dele é Fabrício Russo, ala-pivô do Mogi das Cruzes. Ele treinava com o Projeto Ursos Basquetebol quando tinha 13 anos, em 1998. O técnico dele foi Alexandre Silva, 44, que também é professor na Escola. Até hoje eles têm amizade.

Dos Ursos, Russo foi para o Corinthians, em 2000. Acabou se profissionalizando em 2005 e defendeu o clube até 2006.

O período em que treinou com os Ursos corresponde também ao momento de mudança do projeto. Até 1997, eles treinavam somente aos finais de semana e usavam a estrutura da Escola Municipal Dom Pedro I, também em São Miguel Paulista.

Em 1998, passaram para a Escola Presidente Epitácio Pessoa. Quase dez anos depois começaram a participar das olimpíadas estudantis e a ganhar títulos.

Tudo isso em projeto que jamais teve patrocinadores e conta com uma rede de colaboradores para sobreviver.

“A gente faz rifas, organiza festas, vende hot-dog nos jogos, busca um pai aqui outro acolá. Tenta arrumar uma bola com um. Dá um jeito de conseguir uniforme com outro. Por ano, gastamos R$ 15 mil e não é fácil”, disse Lolita Stasionisas, responsável pela tesouraria dos Ursos e colaboradora do projeto há mais de cinco anos.

“Temos gastos com arbitragem, transporte para os jogos, bola, uniforme, material de trabalho, lanche… às vezes, ajudamos algum jogador que está sem dinheiro para cobrir a passagem. Não tem condições de pensar em alugar uma quadra. A gente já cobre tudo com dificuldade”, disse.

“A gente só quer voltar para a treinar na quadra durante a semana. É a única coisa que pedimos e precisamos”, disse Viviane.

Fonte: ESPN