Cineasta de Itaquera, produz filme ‘Sem Asas’ vence prêmio nacional. Feito em Itaquera, uma cineasta produz o filme ‘Sem Asas’, e vence prêmio nacional.

A cineasta foi premiada na categoria curta de ficção pelo filme ‘Sem asas’ sobre uma história baseada no genocídio da população negra.

Há sete anos, o estudante Douglas Martins Rodrigues, 17, saiu para procurar um chaveiro e não voltou para casa vivo.

Ele foi baleado por policiais militares no dia 27 de outubro de 2013 no Jardim Brasil, na zona norte de São Paulo.

De acordo com testemunhas, depois do tiro, ele perguntou ao policial “Por que o senhor atirou em mim?”.

Nascida e criada na Cidade Líder, zona leste de São Paulo, o caso do menino foi o pontapé para Renata Martins escrever o roteiro de ‘Sem asas’.

História que reflete sobre o assassinato de meninos negros no país.

No domingo (11), a obra levou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2020 na categoria melhor curta-metragem ficção. 

“Eu me fazia muitas perguntas, mas não tinha nenhuma resposta”, conta Renata.

“Como é que um adolescente sai domingo à tarde e não volta mais? O que leva um policial militar a tirar a vida de um jovem inocente que não apresentava nenhum perigo para a sociedade?”. 

De acordo com os mais recentes dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, divulgado neste domingo (18), a maior parte das vítimas policiais no país são homens negros. 

Renata Martins produziu o filme que aborda a violência contra jovens negros.

Entre as vítimas da polícia, 74,3% são jovens de até 29 anos.

Bem como, os números consolidados de mortes violentas no ano passado, os jovens negros também formam o perfil mais vulnerável.

Contudo, entre as 47 mil pessoas assassinadas, mais de 35 mil (74,4%) eram negras e 24,3 mil estavam abaixo dos 29 anos.

Entretanto, a cineasta diz que se tornou recorrente a imagem de mães negras e periféricas que empunhavam a carteira de trabalho de seus filhos para dizer que não eram bandidos.

“Uma coisa é certa: se o país é racista, os jovens negros não estão seguros em nenhum lugar do Brasil”. 

Renata pensou em elementos na tentativa de humanizar as famílias negras. Entre eles, escola, ascensão profissional, afeto e sonhos. “Todas as pessoas assassinadas tinham sonhos, assim como suas famílias. Meu desafio foi convidar o público para ficar um tempo com aquela família preta e tentar dimensionar a iminência da perda”.

As cenas do filme foram gravadas em Cidade Líder, na região de Itaquera, onde vive a diretora. A gravação teve colaboração dos moradores e produção local de Fabiana Pereira, vizinha e conhecedora da região.

Ela conduziu a equipe pelo bairro e explicou aos moradores sobre as filmagens, feitas ao longo de quatro dias no local. 

O curta foi escrito em 2014.

De lá para cá Renata tentou alguns editais, mas o projeto não foi bem recepcionado pelos avaliadores.

Em 2016, a Spcine, empresa de cinema e audiovisual da cidade, lançou o primeiro edital afirmativo voltado para curta-metragistas negros, indígenas, comunidade LGBTQI+, mulheres e pessoas com deficiência. 

Filme ‘Sem Asas’ foi gravado na zona leste de São Paulo

O ‘Sem Asas’ foi contemplado entre os mais de 800 projetos inscritos, mas houve um problema entre a Spcine e o TCU (Tribunal de Contas da União).

O edital foi cancelado. A equipe se inscreveu em outro processo seletivo e foi contemplada novamente. 

“O curta teve que ganhar duas vezes para existir. Só esse processo seletivo diz muito sobre os desafios de profissionais negros para produzir suas narrativas”, observa Renata.

“Sem esse dinheiro ficaria muito difícil alcançar o resultado técnico que alcançamos”. 

REFERÊNCIAS E ATORES

O filme retrata o convívio na família do estudante Zu, um garoto de 12 anos, que após sair de casa para comprar farinha para a mãe, se vê entre o sonho e a realidade.

Logo no começo do filme, o menino Zu diz que quer ser um super herói à prova de balas. Renata diz que a intenção foi referenciar que as crianças negras percebem o risco que vivem na sociedade desde muito cedo.

“É referência direta ao ‘Luke Cage’, personagem da Marvel.

Ele foi o primeiro super-herói negro a ter uma revista própria, criado em 1972”. 

A cineasta explica que as crianças negras, periféricas ou não, estão expostas as várias violências físicas, por isso, o desejo de ser um super-herói à prova de balas parece um sonho possível.

A fala em meio à brincadeira da formatura do prézinho possibilita várias leitura e reflexões. 

Ela diz que a pergunta ‘O que você quer ser quando crescer’ é uma flecha lançada em direção ao futuro e só há futuro se houver vida.

“Sobreviver às tentativas de extermínio é a condição primária para caminhar ou voar rumo ao futuro. No fundo, Zu e todas as crianças negras só querem ter o direito fundamental e primordial à vida. Se a realidade não dá direito ao sonho, ao futuro, que ao menos o cinema, o realismo fantástico dê”, resume.

Para compor a família, eixo central da obra, Renata recorreu a lembranças de outras produções que tinha gostado.

Grace Passô, Jussara, a mãe de Zu, era acompanhada pela cineasta há anos depois de ‘Amores Surdos’, uma peça teatral de 2012. 

O ator e protagonista Kaik Pereira foi visto por Renata na série ‘13 dias longe do sol’, da rede Globo.

“A participação dele era muito pequena, mas a presença em tela era gigante. Kaik traz consigo um olhar muito especial, daqueles que enxerga além”, explica Renata

O pai é interpretado pelo multi artista Melvin Santhana. “Ele já tinha participado de algumas séries e clipes e tinha uma boa relação com a câmera.

Ele trás uma certa doçura dos gestos e sensibilidade para questões raciais, pensei que ele e Kaik fariam uma boa dupla; pai e filho”, diz Renata.

“Quando todos aceitaram eu tive a certeza de que consegui compor a família que sonhava para o filme”Gravação contou com moradores da região.

NEGROS NO CINEMA

Apesar de ter o nome na premiação, Renata indica que conquistar o prêmio foi importante, não só para ela quanto diretora e roteirista, mas para todas as pessoas negras envolvidas com cinema brasileiro. 

“Prêmio de melhor filme está longe de ser mérito apenas da diretora, mas sim de todas as pessoas que compartilharam seus saberes artísticos e técnicos para a realização do filme, neste caso, uma equipe composta majoritariamente por mulheres negras”, pontua.

Ela ressalta que a proposta inicial foi aproximar os profissionais negros e aliados não negros para criar um ambiente seguro de aprendizagem e troca.

“O caminho é muito longo e muitas vezes solitário. Mas temos aí um filme que voou alto e mostrou que é possível”.

A obra pode ser vista no Sesc Digital até o fim deste mês.

*Com colaboração de conteúdo de Agência do Mural

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